         O PRNCIPE HERDEIRO
                          Penny Jordan
                 1 livro da srie As Leis de Niroli




                 A amante secreta do prncipe... esperando um beb da realeza!

 hora de o prncipe playboy Marco Fierezza cumprir seu dever real... e assumir o trono de
                                       Niroli!
   Ele est acostumado a dar ordens... especialmente s mulheres que leva para a cama.
Emily Woodford o ama, mas sequer desconfia que ele seja um prncipe! Quando descobre
 a verdade, fica arrasada: Marco a quer somente como amante, e no como esposa.
      Mas o que este futuro rei far quando descobrir que sua amante est grvida?




      Digitalizado e revisado por: Simone Ribeiro
                              Sempre apaixonados. Sempre orgulhosos.
              A famlia real mais rica do mundo. Unida pela paixo, movida pelo desejo.

       Aninhada no azul-celeste do Mediterrneo, a majestosa ilha de Niroli prosperou por
sculos, e os homens Fierezza usaram sua coroa com paixo e orgulho desde a Antiguidade. Mas
agora, com o declnio da sade do rei e a trgica morte de seus dois filhos, a coroa corre perigo.
       Um novo herdeiro deve ser encontrado antes que o rei seja forado a abdicar. Por decreto
real, os membros da famlia Fierezza espalhados pelo mundo so chamados a cumprir seus
destinos.
       Mas qualquer um que venha a assumir o trono deve faz-lo de acordo com "As Leis de
Niroli".
       Segredos e rivalidades logo vm  tona quando os descendentes dessa antiga linhagem real
lutam por posio e poder. Somente um Fierezza pode se tornar governante -- uma pessoa
dedicada a seu pas, a seu povo... e ao amor eterno.
       Acompanhe as intrigas reais, as disputas pelo poder e as paixes avassaladoras! Oito
livros, oito herdeiros, oito romances. At que o verdadeiro herdeiro de Niroli seja coroado!
                                            As Leis

1.    O governante deve ser um lder moral. Qualquer ato que coloque a famlia real em
descrdito excluir o candidato da sucesso ao trono.

2.   Nenhum membro da famlia real poder se casar sem o consentimento do soberano.
Qualquer unio realizada desta forma resultar na excluso e na perda de honras e privilgios.

3. Nenhum casamento ser permitido se os interesses de Niroli forem comprometidos com tal
unio.
4. No  permitido ao soberano de Niroli se casar com uma pessoa divorciada.

5.   Fica proibido o casamento entre membros da famlia real que possuam laos sanguneos.

6. Fica a cargo do soberano a educao de todos os membros da famlia real, mesmo quando os
cuidados gerais forem de responsabilidade dos pais.

7.   Nenhum membro da famlia real pode contrair dbitos acima das possibilidades de
pagamento sem o consentimento ou aprovao do soberano.

8.    Nenhum membro da famlia real pode aceitar herana ou qualquer doao sem o
consentimento ou aprovao do soberano.

9.    O soberano de Niroli deve dedicar sua vida ao reino. Assim, ele no pode exercer uma
profisso.

10. Os membros da famlia real devem residir em Niroli ou em um pas aprovado pelo soberano.
Porm, o soberano deve residir em Niroli.
                                           CAPITULO UM

       Marco abriu os olhos e observou o relgio de cabeceira: 3h da manh. Ele estava sonhando
com Niroli e com seu av, o rei. O corao ainda batia acelerado em funo da adrenalina e da
excitao revividas com as lembranas das discusses de juventude que tinha com o av.
       Foi em uma dessas discusses que Marco decidiu provar para si mesmo, e para seu av,
que era capaz de alcanar sucesso foram de Niroli, sem a proteo e a influncia dele. Ele tinha
22 anos. Agora, com 36 anos, fazia tempo que ele e o av haviam feito as pazes, apesar de o velho
homem nunca ter entendido a recusa do neto em mudar de ideia sobre a deciso de trilhar o
prprio caminho no mundo. Marco estava certo de que o seu sucesso no viria por ser neto do rei
de Niroli, mas por seus prprios mritos. Como simplesmente Marco Fierezza, o jovem
empreendedor europeu usou sua perspiccia e seu conhecimento em finanas para se tornar um
dos financistas milionrios mais aclamados de Londres.
       Nos ltimos anos, Marco ficou ironicamente surpreso ao notar que seu av recorria a ele
para obter orientaes financeiras. Por outro lado, o av alegava que os laos sanguneos o
dispensavam de pagar pelos servios prestados pelo neto. A verdade era que seu av era uma
raposa velha que usava de todos os meios para coagir os outros a fazer o que ele desejava, fre-
quentemente alegando que o que fazia era muito mais pelo bem de Niroli do que pelo dele.
Niroli!
       Do lado de fora, a chuva glida de Londres batia contra as janelas do apartamento de
Marco, que sentiu uma pontada de saudade da bela ilha mediterrnea que sua famlia governava
por tantas geraes. Uma jia verde e dourada iluminada pelo sol e encravada em um mar verde-
azulado, de onde brotavam montanhas vulcnicas cercadas por nuvens prateadas.
       O mesmo mar que levara as vidas de seus pais, ele recordava melancolicamente. Que no
s os roubara dele, mas tambm o fizera herdeiro do trono.
       Marco sempre soube que, no final das contas, ele seria o rei de Niroli, mas tambm
acreditava que isso levaria muitos anos para acontecer. Era algo que fazia questo de ignorar
para usufruir o presente. Contudo, na realidade, o que ele pensava ser uma obrigao distante
estava prestes a acontecer.
       Seria essa conscincia a razo para o sonho que tivera? Afinal de contas, se concordasse
em fazer como o rei Giorgio havia solicitado, retornando a Niroli para se tornar seu governante,
no seria um elemento de demonstrao masculina no alto dos seus poderes retornar para
confrontar o velho lder? Marco conhecia e compreendia o velho homem muito bem. Seu av
alegaria que ele estava pronto para assumir o governo real, mas Marco desconfiava que Giorgio
ainda gostaria de controlar quem o estivesse apoiando o quanto pudesse. E mais, apesar de sua
conscincia sobre esse fato, Marco sabia que o desafio de governar Niroli e transform-lo no pas
que gostaria de ver o empolgava.
       Nunca teve dvidas de que, quando finalmente assumisse o trono, faria mudanas no
governo da ilha para traz-la ao sculo XXI. Ele teria que suceder o seu conciliatrio e gentil pai
sem deixar a tirania do av pesar sobre os seus ombros.
       Marco balanou os ombros com indiferena. Ao contrrio de seu falecido pai, homem
sbio e tranquilo, qualidades reconhecidas desde cedo pelo filho, que fora impiedosamente
intimidado e desprezado pelo rei, Marco nunca se deixou subjugar pelo av, mesmo quando
criana. Eles compartilhavam a mesma caracterstica: a violenta autoconfiana, motivo do
conflito entre os dois. Agora, como um homem maduro e poderoso, no havia a menor
possibilidade de Marco permitir que qualquer pessoa questionasse seu direito de fazer as coisas ao
seu modo. Ele sabia que ao assumir o trono precisaria fazer algumas mudanas em seus hbitos.
Havia certas leis reais que ele deveria obedecer, mesmo que no concordasse com elas.
      Uma delas proibia o casamento do rei de Niroli com uma mulher divorciada. Marco no
tinha pressa em se casar, mas sabia que quando decidisse faz-lo deveria ser com uma princesa
real, pr-aprovada e de incontestvel virtude. De alguma forma, ele no achava que isso
combinasse com os seus propsitos, ou com os paparazzi, se o vissem se divertindo abertamente
com uma amante em vez de cumprir o dever de encontrar uma esposa adequada.
      Ele olhou na direo da cama em que Emily dormia, esquecendo-se do que o esperava pela
frente: o fim iminente desse relacionamento. Os longos cabelos naturalmente louros de Emily
estavam espalhados no travesseiro. Para sua surpresa, Marco sentiu-se subitamente tentado a
entrelaar seus dedos nos fios sedosos, mesmo sabendo que o toque poderia acord-la. Seu corpo
se enrijecia s de pensar no contato ntimo com aquela mulher. Ele ainda a desejava intensa e
constantemente, mesmo depois de todo o tempo em que estavam juntos, tempo muito maior do
que havia passado com qualquer outra mulher. As necessidades e os desejos sexuais de Marco
Fierezza no poderiam ser comparados ao desafio de tornar-se rei de Niroli.
      Rei de Niroli.
      Emily no sabia nada sobre sua ligao com Niroli, sobre o seu passado, e,
consequentemente, no sabia nada sobre o futuro dele. Por que deveria? Que motivos ele teria
para contar a ela, se havia escolhido viver no anonimato? Ele deixou Niroli jurando provar para
seu av que poderia se manter por conta prpria e ter uma vida de sucesso sem usar sua condio
real. Marco descobriu rapidamente que seu anonimato tinha certas vantagens particulares.
Como segundo herdeiro ao trono de Niroli, cresceu acostumado  seduo de certas mulheres
que tentavam atra-lo. Seu av o advertira de que deveria estar atento e aceitar que nunca saberia
se uma mulher queria dividir a cama com ele por ele mesmo ou pelo que ele representava.
Vivendo em Londres como Marco Fierezza, em vez de prncipe Marco de Niroli, ele estava
cinicamente convencido de que o que atraa o sexo oposto era a combinao da riqueza com a
boa aparncia. Ele no provocaria frenesi se usasse seu ttulo de nobreza. Marco no se opunha
em recompensar generosamente suas amantes com presentes caros e uma vida luxuosa enquanto
estivessem juntos. Ele franziu as sobrancelhas. Marco ainda se irritava com a insistncia firme
de Emily em recusar todas as jias com que ele regularmente tentara presente-la. Dessa vez
ainda tentou convenc-la em aceitar o presente como uma recompensa, quando ela retrucou, de
forma direta;
      -- Para que isso? -- disse ao ser presenteada com um bracelete de diamantes para
comemorarem um ms juntos.
      Ela ficou plida e olhou para a caixa de couro que continha o bracelete.
      -- Voc no precisa me subornar, Marco. Estou com voc por desejo, no pelo que pode
comprar para mim.
      Agora Marco estava tenso, repetindo a reao que teve quelas palavras, como se Emily as
estivesse pronunciando naquele momento. Ele podia sentir a mesma irritao e raiva
comprimindo seus msculos. Era surpreendentemente inacreditvel que a mulher com quem ele
dividia os prazeres sexuais pudesse ousar sugerir que ele precisaria suborn-la para que ela se
deitasse com ele!
      Ele logo respondeu  altura, Marco recordou. Sua resposta foi machista e cida.
      -- No, voc entendeu mal. Afinal, eu j sei por que se deita comigo e o quanto me quer.
O suborno, se voc prefere chamar assim, no  para mant-la em minha cama, mas para
garantir que voc a deixe de forma rpida e silenciosa quando eu no a quiser mais.
      Ela no contestou, mas ele pde perceber nas expresses de Emily o que estava sentindo.
Nenhuma mulher conseguiria ser mais importante para ele do que sua rgida determinao em
no se permitir ser dominado ou enfraquecido pelas emoes. Ele cresceu observando seu rgido
e determinado av facilmente usando o generoso amor do prprio filho para coagir, manipular e,
na maioria dos casos, na presena de Marco, humilhar para conseguir que fizesse o que o rei
Giorgio queria.
       Marco presenciou o suficiente para alimentar qualquer iluso sobre o valor do orgulho
masculino ou da vontade inabalvel de gentileza e desejo de agradar aos outros. No que Marco
no amasse seu pai; prova disso era que, quando jovem, frequentemente se ressentia e atacava
verbalmente o av pela forma como o velho homem tratava seu herdeiro direto.
       Marco decidiu que isso nunca aconteceria com ele. No permitiria que ningum, nem
mesmo o rei de Niroli, comandasse sua vida.
       Marco tinha plena conscincia de que, apesar de ter frequentemente irritado seu av com
seu jeito rebelde, o velho homem nutria um contido respeito por ele. O orgulho e a tenacidade
eram atributos que possuam em comum, e os dois eram parecidos em muitos aspectos. Mesmo
assim, Marco sabia que quando ele fosse o rei de Niroli faria muitas mudanas para modernizar
o reino. Marco considerava o modo como o av governava Niroli quase feudal. Ele concordava
com a opinio do pai de que era essencial dar s pessoas a oportunidade de governar suas
prprias vidas, e no trat-las como o av as tratava: como crianas analfabetas incapazes de
tomar suas prprias decises. Ele tinha muitos planos para Niroli. No era de estranhar que
estivesse ansioso para abandonar o papel que havia criado para si em Londres e vestir o manto a
que estava destinado! A idia de vir a ficar sem a amante o aborrecia um pouco. Afinal de
contas, era um homem maduro, e suas ambies iam um pouco alm de desejar uma parceira de
cama com quem nunca poderia arriscar ter um compromisso emocional ou legal.
       No sentiria saudades de Emily, garantiu a si mesmo. O nico motivo pelo qual se
permitiu pensar no assunto era a preocupao com o fato de que ela no aceitaria com calma e
tranquilidade o fim do romance dos dois. Ele no pretendia mago-la, longe disso.
       Marco nem havia decidido se realmente precisaria contar a ela. Ele deixaria Londres,
claro, mas suspeitou que os paparazzi certamente saberiam o que estava se passando em Niroli, j
que a ilha era governada por uma das famlias reais mais prsperas do mundo.
       Para o prprio bem de Emily, ela deveria compreender que nada do que eles viveram
poderia afetar o futuro de Marco como rei de Niroli. Ele realmente nunca entendeu a constante
recusa de Emily em aceitar seus presentes caros e permitir que ele a ajudasse financeiramente ou
de qualquer outro modo na pequena empresa de design de interiores que possua. Como ele no
conseguia entender isso, apesar de estarem juntos h quase trs anos, Marco se perguntava o que
ela estaria esperando receber dele que fosse mais valioso do que dinheiro. Era da sua natureza
no confiar em ningum.
       Marco ficou tenso, automaticamente evitando a indesejada dor que a lembrana de seus
pais e suas mortes ainda lhe causava. Ele no queria admitir aquela dor e certamente no
admitiria os sentimentos confusos que enterrara to profundamente: o sofrimento em nome do
pai; culpa por no ter podido perceber o que seu av fazia com seu pai, por no ter sido capaz de
evitar tudo isso; raiva pelo pai ter sido to fraco; raiva do av, por ter se aproveitado dessa
fraqueza, e de si mesmo, por ter visto o que no gostaria de ver.
       Marco e seu av fizeram as pazes, seu pai j se fora e ele agora era um adulto, no mais um
menino. Ele agora s revivia a dor do passado em sonhos, e, quando o fazia, o sofrimento podia
ser rapidamente eliminado na paixo bruta de satisfazer seu desejo fsico com Emily.
       E quando Emily no estivesse mais por perto? Por que estava perdendo seu tempo se
perguntando coisas to idiotas? Em ltimo caso, encontraria outra amante. Sem dvida teria que
ser uma ligao discreta, com o tipo certo de mulher. Talvez a jovem esposa de um marido mais
velho, mas no to jovem a ponto de no compreender as regras, claro. Se Emily fosse sensata o
suficiente, ele poderia at mant-la com a respeitabilidade de um casamento com algum corteso
e, em troca, prosseguirem com o romance deles quando se tornasse rei de Niroli. Mas Marco
reconhecia que a grande paixo que a fazia ser uma amante responsvel tambm demonstrava
que ela no era o tipo que se adaptaria s regras de uma amante real.
      Emily adoraria Niroli, uma ilha to bela e frutfera que as antigas crenas diziam que o
prprio Prometeu a erguera das profundezas do oceano para que pudesse presente-la 
humanidade.
      Onde havia, porm, tanta beleza, tambm havia muita crueldade, como muitas lendas
relatavam. Os deuses cobraram um preo alto pelas belezas de Niroli.
      Marco descobriu-se, concluindo que no conseguiria dormir. Dirigiu-se  janela -- seu
corpo esbelto, forte e incrivelmente delineado sob a luz do luar, como que esculpido por um
grande mestre.
      O vento estava mais forte, jogava a chuva contra as janelas e fazia com que os galhos nus
das rvores se curvassem. Marco pensou novamente em Niroli, onde frequentemente violentas
tempestades varriam a ilha e agitavam o mar.
      Quando menino, adorava assistir ao vento selvagem maltratando as terras distantes,
abaixo da torre do castelo real. Nunca teve autorizao para sair e brincar, como os outros
meninos faziam. Em vez disso, seu av insistia que permanecesse nos limites do castelo,
aprendendo sobre o passado da famlia e sobre suas futuras funes como rei.
      Na cabea de Marco, ideias incontrolveis comeavam a se formar, enroscando-se como
fantasmas que vinham das lembranas da infncia. Sempre fora seu av, no seus pais, que
ditava e impunha as regras da sua infncia...
      -- Marco, volte para a cama, est frio sem voc. -- A voz de Emily era suave, lenta,
calorosa e repleta de docilidade e promessas. Era um convite implcito.
      Ele se virou. Afinal de contas, ele a acordara. Emily dirigia sua pequena empresa de design
de interiores em um modesto escritrio. No primeiro momento em que a viu, em um coquetel,
Marco a desejou e quis conquist-la. Ele fez questo que ela percebesse isso tambm. Marco
estava acostumado a traar seu prprio caminho, exigindo seus direitos para direcionar o curso
da prpria vida, mesmo que para isso precisasse impor sua vontade sobre aqueles que se
opusessem a ele. Rapidamente ele descobriu que Emily era uma mulher divorciada e sem filhos,
o que a tornava o modelo perfeito para o papel de sua amante. Se eleja soubesse de sua
verdadeira histria emocional e sexual, no teria insistido. Quando descobriu, porm, a verdade,
seu desejo j era tanto que foi impossvel rejeit-la.
      Ele olhava para ela agora sentindo aquele enorme desejo outra vez, e lutando para cont-
lo, como sempre lutou contra tudo ou todos que ameaavam control-lo.
      -- Marco, algum problema? O que h?
      De onde viria essa capacidade inconsciente que ela aparentava possuir, prevendo o que no
poderia saber? No ano em que seus pais morreram, as tempestades chegaram antes a Niroli.
Marco podia lembrar como e onde recebeu as primeiras notcias. Mesmo antes que dissesse
qualquer coisa, ela, de alguma maneira, j sabia que algo estava errado. Por outro lado, enquanto
era intuitiva no que dizia respeito aos sentimentos dele, Emily no foi esperta o suficiente para
fazer a conexo entre o anncio da morte de seus pais e as notcias na mdia sobre a morte do
herdeiro direto ao trono de Niroli. Marco lembrou o quanto ela demonstrou estar magoada
quando ele avisou que iria ao funeral dos pais sem ela, mas no disse uma palavra. Talvez
porque ela no quisesse provocar uma briga que pudesse levar ao fim do relacionamento. A razo
para no querer o trmino da ralao, por mais que demonstrasse desinteresse pelo dinheiro dele,
era que Emily estava bem consciente do que poderia perder financeiramente se o relacionamento
acabasse. Na opinio de Marco, era impossvel que qualquer mulher fosse to desinteressada nos
benefcios financeiros que poderia receber na condio de sua amante.
      No escuro do quarto, Emily fez uma careta enquanto ouvia o prprio tom apelativo. Por
que ser que no conseguia se conter, mesmo no concordando com o que estava se tornando?
Estaria destinada a sempre se envolver em relacionamentos que a deixavam insegura?
      -- Nada de errado -- Marco respondeu. Havia um tom em sua voz que a deixou tensa e
assustada, apesar do esforo que fazia para que isso no acontecesse. O problema  que quando
se comea a mentir para si mesma com frequncia quanto  realidade do seu relacionamento,
quando se comea a fingir que no percebe ou no se importa em ser a parte mais fraca, em no
se valorizar ou se respeitar o suficiente, voc entra em um estgio onde o maior esforo no 
para descobrir a verdade, mas para se esconder dela. Emily se deu conta de que s poderia culpar
a si mesma por se encontrar naquela situao.
      Ela sabia, desde o incio, o tipo de homem que Marco era e o tipo de envolvimento que
queria com ela. O problema era que ela conhecia melhor os planos de Marco do que os seus
prprios. Apesar de tentar com veemncia, muitas vezes, quando estava se sentido por baixo
como agora, ela cedia  tentao de fantasiar como Marco poderia ser diferente. Ele no
precisava ser to rico ou to atraente sexualmente a ponto de poder ter a mulher que desejasse,
mas, pelo contrrio, poderia ser apenas um homem comum, com objetivos comuns: um
casamento feliz, uma esposa... O corao de Emily disparou, provocando uma pequena dor. Ela
pensou nos filhos que poderiam ter... e mais uma vez seu corao apertou, agora com mais
intensidade.
      Por que havia sido to tola ao se apaixonar por Marco? Ele sempre deixara claro o que
queria dela, e o que daria em retorno, e amor no fazia parte do acordo. Mas ela jamais poderia
imaginar que se apaixonaria. No incio, ela desejava tanto Marco que estava feliz em seguir com
um relacionamento puramente sexual, pelo tempo que ele a desejasse.
      Ela era a nica responsvel pela dor que tinha que suportar agora, pela farsa que tinha que
representar e pelo medo que a rondava. Em breve Marco perceberia a mentira e a deixaria. Ela se
odiava tanto por ser fraca e por no ter coragem de admitir seu amor e assumir as consequncias
de deix-lo, apesar da inevitvel e terrvel dor. Mas quem poderia saber? Talvez seguir sem
Marco pudesse ajud-la a encontrar a liberdade de ser uma nova pessoa. Mas ela era to covarde
que no seria capaz de dar aquele passo. Sabia que tinha de partir e lidar com os seus
sentimentos, mas permanecia e sofria milhares de vezes ao perceber a falta de amor de Marco
por ela.
      Apesar disso, ela o desejava, e no conseguia desistir da frgil esperana de que talvez,
apenas talvez, as coisas pudessem mudar e que um dia Marco olharia para ela e descobriria que a
amava. Que um dia daria a ela acesso quela parte que guardava com tanta ferocidade e
confessaria que gostaria de viver com ela para sempre...




                                         CAPTULO DOIS

       Este era o sonho de Emily, mas a realidade era outra. Recentemente, ela percebera que eles
estavam mais afastados do que juntos. Na manh anterior, prometera a si mesma que
enfrentaria seus medos. Emily respirou fundo.
       -- Marco, eu sempre fui franca... e honesta com voc... -- Isso no seria bom, ela no
poderia fazer isso. No poderia fazer esta pergunta a ele: -- Voc quer terminar nosso
relacionamento? -- Alm disso, ela no havia sido to honesta com ele, havia? No contou, por
exemplo, que tinha se apaixonado. O corao de Emily deu outro n.
       Marco estava olhando para ela. Seus cabelos escu ros e sedosos estavam curtos, mas no
to curtos que ela no pudesse deslizar seus dedos por entre os fios para mant-lo junto dela
quando faziam amor. A luz era suficiente para que ela visse o brilho nos olhos dele, como se
Marco adivinhasse o rumo dos pensa mentos dela e percebesse o quanto o desejava. Marco tinha
o olhar mais penetrante que Emily j vira. Ele a olhara da mesma forma na noite em que se
conheceram, quando ela tentou manter a razo e no se deixar seduzir abertamente por um par
de olhos castanho-claros de um predador...
       Emily sabia que deveria demonstrar firmeza e pedir uma explicao para as mudanas que
percebia em Marco, mas, na infncia, no aprendera a falar aber tamente sobre seus sentimentos.
Muito pelo contrrio, costumava tranc-los atrs das portas da tranquilidade e do autocontrole.
Seria por medo das consequncias que ela no permitia que seus verdadeiros sentimentos
viessem  tona? Ou por medo de revelar a verdade? Algo estava errado. Marco havia mudado --
estava ausente e preocupado. Emily no tinha como negar o fato. Estaria cansado dela? Ser que
pretendia ter minar o relacionamento? No seria melhor, mais pru dente, mais coerente se ela o
desafiasse a contar a ver dade? Ela realmente acreditava que ignorando seus medos eles
desapareceriam?
       -- Voc disse que sempre foi franca e honesta comigo, Emily, mas isso no  verdade, ?
       O corao de Emily deu um salto de desespero. Ele saberia? De alguma forma, ele
adivinhou o que ela estava pensando e, pior ainda, ela percebeu que ele estava buscando uma
discusso... pois isso lhe daria um argumento para terminar o relacionamento.
       -- Lembra da noite em que a levei para jantar e voc me contou sobre o seu casamento?
Lembra como voc foi "franca" comigo e o que deixou de me contar? -- Marco lembrou,
sarcasticamente.
       Emily mal conseguia falar. Ela foi invadida por alvio e angstia. Seu casamento! Durante
todo esse tempo acreditou que Marco tinha entendido as cicatrizes que o passado havia deixado,
mas agora percebia que estava errada.
       -- No foi proposital, voc sabe disso -- Emily tentou responder com a voz firme. -- Eu
no escondi nada deliberadamente. -- Por que ele estaria trazendo isso de volta? Ele no podia
estar tentando usar isso para se livrar dela... No era o tipo de homem que precisava de artifcios
para fazer alguma coisa. Ele era arrogante o bastante para no precisar suavizar qualquer golpe
que pretendesse executar.
       Marco desviou o olhar de Emily irritado com o que disse. Por que havia trazido  tona o
casamento dela agora, quando a ltima coisa que queria era o perigo que envolvia o
sentimentalismo de voltar ao incio do relacionamento? Mas era tarde, ele j havia tocado no
assunto...
       Ele levou Emily para jantar, preparou a cena para que a noite terminasse como ele
esperava e disse friamente o quanto gostaria de fazer amor com ela e como estava satisfeito em
saber que Emily era uma mulher comum, com um casamento por trs e sem filhos para se
preocupar.
       -- Por que voc se divorciou? -- Se havia algo no passado dela, ele gostaria de saber antes
que as coisas fossem adiante.
       Por um momento ele pensou que ela fosse se recusar a responder, mas, ento, Emily
arregalou os olhos suavemente e ele percebeu que ela havia entendido corretamente a pergunta.
Ela sabia perfeitamente que se se recusasse a responder o relacionamento deles teria terminado
antes mesmo de comear.
       Quando Emily finalmente comeou a falar, surpreendeu-o com uma interrupo, quase
gaguejando e mexendo nervosamente nos talheres para, em seguida, demonstrar mais calma e
controle do que antes. Seu rosto revelava ansiedade, e ele deduziu que o trmino de seu
casamento deveria estar relacionado a algo que ela teria feito. Algo como ter sido infiel. A ltima
coisa que Marco esperava ouvir foi o que ela realmente contou. Tanto que ele se sentiu tentado a
desmenti-la, mas algo no olhar dela o deteve...
       Marco inquietou-se ao lembrar o quanto ficou chocado com a inesperada compaixo que
sentiu por ela  medida que Emily se esforava para superar a dificuldade em tocar em um
assunto que certamente era muito doloroso...
       -- Eu perdi meus pais quando tinha sete anos e fui criada por meu av -- Emily contou. --
Ele era austero comigo, no se sentia  vontade com crianas, principalmente com meninas
sensveis. Era um professor aposentado pela Cambridge University, muito modesto e gentil. Ele
lia os autores clssicos para eu dormir. Meu av conhecia muito sobre literatura, mas naquela
poca eu no percebia que ele sabia to pouco sobre a vida. Fui criada com muita proteo e
restrio em alguns aspectos, principalmente quando cheguei  puberdade e a sade dele
comeou a se deteriorar. -- O crculo de amizades de vov era muito restrito, alguns velhos
professores e... Victor.
       -- Victor? -- Marco perguntou, ao perceber a hesitao na voz de Emily.
       -- Sim, Victor Lewisham, meu ex-marido. Ele foi um dos ex-alunos de vov que se
tornou professor assistente na universidade.
       -- Ele devia ser bem mais velho que voc -- Marco sups.
       -- Vinte anos mais velho -- Emily concordou. -- Quando ficou claro que vov estava
doente, ele me disse que Victor concordara em cuidar de mim. Vov morreu algumas semanas
depois dessa conversa. Eu estava ento no primeiro ano da faculdade e, apesar de saber o quanto
ele estava frgil, no havia me preparado. Perd-lo foi um choque. Era tudo que eu tinha. Por
isso, quando Victor me pediu em casamento e disse que era a vontade de vov, eu... -- Ela
abaixou a cabea, desviou o olhar de Marco e disse, em voz baixa: -- Eu deveria ter recusado,
mas no conseguia imaginar como me sairia sozinha. Estava com tanto medo... fui to covarde!
       -- Ento foi um casamento de convenincia? -- Marco sacudiu os ombros de forma
debochada. -- Ele era bom na cama?
       Marco continuava irritado no admitindo que sua provocao direta a Emily tivesse
recado sobre uma onda de cimes provocada s de imagin-la com outro homem. Cime sexual
era uma emoo que ele no estava acostumado a sentir. Sexo era sexo, uma vontade fsica
satisfeita por um ato sexual. Emoes no tinham nada a ver com isso, e ele no via por que
deveriam. Ele ainda pensava desse modo. Marco no entendia por que havia confrontado Emily
daquela forma, ou o que o havia levado quela agressividade fora de contexto ao pensar nela com
outro homem. At porque ela ainda no era sua. As lgrimas contidas nos olhos de Emily o
pegaram de surpresa. Inicialmente, ele quis acreditar que estavam relacionadas ao sofrimento
vivido pelo trmino do casamento, mas, para seu espanto, ela confessou:
       -- Nosso casamento... nosso relacionamento nunca se consumou fisicamente.
       Marco lembrou como se esforou para no demonstrar seu espanto, talvez por ter
reconhecido, pela primeira vez na vida, que  que precisava demonstrar no era a arrogante
indiferena to frequentemente evidenciada por seu av. Agora, ele precisava de controle e
pacincia para que ela se explicasse. E foi o que Emily fez, depois de verificar que ele no se
recusara a acreditar nela.
       -- Eu era muito ingnua para perceber que o fato de Victor no tentar se aproximar de
mim sexualmente talvez no fosse... pelo cavalheirismo de considerar minha inexperincia --
ela continuou. -- E como mesmo depois do casamento eu continuava no o desejando, foi fcil
no questionar o fato de ele no querer fazer amor comigo. Se eu no tivesse tido uma vida to
resguardada e tivesse passado mais tempo com gente da minha idade, as coisas provavelmente
teriam sido diferentes e eu, com certeza, perceberia que algo estava errado. Isso foi at eu...
encontr-lo com outra pessoa na cama e entender...
       -- Ele tinha uma amante -- Marco interrompeu-a. Houve apenas uma pausa antes que ela
contasse, calmamente:
       -- Ele tinha outra pessoa, sim, um amante -- ela enfatizou. -- Eu deveria ter imaginado,
claro, e suspeito que o pobre Victor pensava que eu sabia. Ele me tratava como uma estudante
mais jovem, como uma criana que pudesse reverenci-lo e aceitar sua superioridade. O fato de
eu t-lo encontrado na cama com um de seus jovens alunos foi um terrvel golpe para o amor-
prprio de Victor. Ele no conseguiria me perdoar. A nica maneira que encontrei para me
desculpar por ter sido to imprudente foi insistir no divrcio. No incio, ele relutou em aceitar.
Victor pertencia mais  gerao de meu av do que  sua prpria. Ele no conseguia aceitar sua
sexualidade, por isso tentou concili-la com um falso casamento. Meu av me deixou um pouco
de dinheiro, ento eu vim para Londres e procurei um emprego. Sempre me interessei por design
de interiores. Voltei para a faculdade para me formar, e h alguns anos, depois de trabalhar em
estdios de outras pessoas, comecei a trabalhar em meu prprio negcio. Eu queria uma vida
nova, me afastar das pessoas que sabiam... sobre Victor. Eles deviam me ver como uma idiota
por no ter percebido. Eu me sentia como um tipo de aberrao... casada, mas no casada.
       -- E virgem? -- Marco acrescentou.
       -- Sim -- Emily concordou, antes de continuar.
       A comida chegou antes que Marco tivesse a chance de perguntar sobre o homem que ele
presumia ter tirado a virgindade dela. Marco teve curiosidade sobre o homem e o invejou.
       Marco franziu as sobrancelhas evitando lembrar do forte desejo de urgncia que sentiu ao
ver Emily e que se manteve vivo mesmo depois de t-la possudo.
       Ele voltou para a cama enquanto Emily o observava, o corao dela batia acelerado. Eram
amantes por quase trs anos e Marco ainda provocava as mesmas reaes nela, como da primeira
vez em que o havia visto. A sexualidade de Marco ainda provocava fascinao e desejo, mesmo
agora que Emily podia sentir a dor do abismo emocional entre eles to forte. Quando se
encontraram pela primeira vez, ela imediatamente o desejou, ainda sem saber que isso a
escravizaria emocional e fisicamente. E se soubesse? Teria agido de forma diferente? Teria dado
meia-volta e se afastado dele o mais rapidamente possvel?
       Emily pde esconder a tristeza em seus olhos na escurido da noite. Tristeza que a
denunciaria se Marco pudesse v-la. Foi um pouco antes do Natal que ela notou, pela primeira
vez, que ele parecia irritado e preocupado, voltando-se para si mesmo e evitando-a. Inicialmente,
ela achou que ele poderia estar com algum problema nos negcios, mas agora estava comeando
a temer que o motivo do descontentamento poderia ser o relacionamento deles. Se o
distanciamento tivesse comeado nos meses seguintes ao acidente no qual Marco perdera os
pais, ela teria achado que era esse o motivo. Afinal, mesmo um homem que se vangloriava de ser
racional como Marco seria obrigado a sofrer depois de um acontecimento to trgico. Contudo, a
primeira coisa que fez quando retornou foi lev-la para a cama, sem falar uma s palavra sobre o
funeral ou sobre sua famlia. E fez amor com ela de forma intensa e quase compulsiva.
       Marco raramente falava sobre a infncia, e nunca sobre a famlia. No incio, ela se adaptou
perfeitamente a isso. Emily achou que o relacionamento deles, inicialmente, era uma transio
da ingenuidade para a experincia, uma ponte necessria entre o abismo do seu passado e o
futuro, um passaporte para a nova vida de uma mulher adulta. Porque, apesar de tudo, ela
alimentava a esperana de um dia encontrar um verdadeiro parceiro. Um homem com quem
pudesse dividir sua vida, a quem pudesse entregar-se amorosamente e com quem pudesse ter
filhos.
       Como havia sido tola e imprudentemente inconsciente dos riscos que estava atraindo para
si. Emily, simplesmente, no pensou que pudesse se apaixonar por Marco! Ele foi claro sobre o
modo como levava sua vida e o que buscava nos relacionamentos: enquanto estivessem juntos,
ela poderia confiar plenamente em sua fidelidade, mas, quando acabasse, estaria acabado e ponto
final. Ele no desejava nenhum envolvimento emocional da parte dela, e isso no deveria ser
esperado dele. E, o mais importante de tudo, ela no deveria engravidar.
       --E se houvesse um acidente e...? -- ela perguntou.
       Marco a interrompeu imediatamente.
       --No haver acidentes -- ele respondeu asperamente. -- Com os modernos mtodos de
contracepo, no h razes para acidentes. Se voc tiver algum motivo para pensar que houve
algum, ento deve certificar-se de que a situao seja resolvida sem demora.
       Emily o desejava muito para admitir o quanto estava chocada com aquela atitude to fria.
Em vez disso, disse a si mesma que isso no importava, pois pretendia esperar para ter seus
filhos quando encontrasse o homem certo para ela.
       Marco insistiu com tanta nfase e determinao, e ela o desejava tanto que, na verdade,
quaisquer dvidas que tivesse tinham sido superadas pelo desejo sexual entre eles. Pela primeira
vez na vida ela conheceu o verdadeiro significado da palavra "luxria". Todos os seus sonhos e
pensamentos ao acordar eram com ele e como seria quando ele a levasse para a cama.
       Ela ia s lojas de lingerie mais caras de Londres em busca das peas mais provocantes para
excitar e fascinar Marco. Depois de uma semana encontrando-se com ele, passou a usar as mais
sedutoras, rendadas e menores roupas ntimas para trabalhar. Tudo para o caso de Marco
aparecer e insistir em lev-la para o seu apartamento para consumarem a relao. Emily sorriu
s de lembrar o quanto se sentia sensualmente poderosa e das coisas que imaginava que
poderiam acontecer...
       Tais fantasias no eram nada perto da realidade das reaes que tinha com as habilidades
sexuais de Marco. Ele a despiu com calma e pacincia, no belo quarto da pequena casa de Emily
em Chelsea, quase a irritando por fazer seu corpo tremer de desejo com seus toques. E, ento,
mesmo depois de toc-la, as carcias de Marco eram tentadoras e suaves, um leve passar de dedos
e lbios, fazendo-a desejar algo mais secreto e ntimo. S de pensar nisso naquele momento, seu
corao dava cambalhotas e a deixava fraca de desejo. Ela recordou o quanto tentou demonstrar
sua ansiedade, mas Marco se recusava a se apressar. Os lbios de Marco provocavam os bicos
dos seus seios, os dedos acariciavam sua barriga e deslizavam para suas coxas, enquanto ela
suspirava de prazer. Marco abriu as pernas de Emily e com os dedos acariciou seu sexo, fazendo-
a gemer em voz alta.
       Ele mal comeou a beij-la mais intensamente e o telefone tocou. No impulso, ela fez a
besteira de atender, para logo descobrir que se tratava de um de seus clientes mais difceis, que
queria discutir algumas idias para a nova reforma. Logo que Emily se livrou do cliente, Marco
j estava vestido, deixando claro que no ficaria em segundo plano.
       O incidente mostrou que ele sempre desejaria as coisas  sua maneira, e ela no cometeu o
mesmo erro outra vez. Ou esse erro estaria condicionando a vida profissional de Emily  vida de
Marco? Recentemente reconheceu que, no fundo, era o tipo de mulher que ansiava por ser o eixo
da famlia, tanto como mulher quanto como me. Ela no gostaria de estar do outro lado do
mundo ajudando um cliente a escolher o tom da tinta para uma reforma e deixando seu
companheiro chegar e encontrar a casa e a cama vazias. Gostava do seu trabalho e estava
orgulhosa por t-lo conseguido, mas sabia que o que realmente a estimulava era criar um
ambiente feliz para aqueles que amava.
       Contudo, Marco era o tipo de homem que apreciava um desafio, e o que a fez sentir-se um
pouco melhor mais tarde foi ele ter admitido o quanto ansiou por aquela noite. No poderia ter
ansiado mais que ela. Menos de trs meses depois de terem se conhecido, Marco convidou-a para
morarem juntos. Foi quando eles tiveram sua primeira discusso. Emily descobriu que ele
esperava que ela desistisse do trabalho. Ele foi categrico ao afirmar que poderia lhe dar uma
mesada.
       -- Eu quero ficar com voc -- ela afirmou --, mas no vou abrir mo da minha
independncia financeira, Marco. No quero seu dinheiro.
       -- Ento, o que quer? -- ele questionou, curioso.
       -- Voc -- ela respondeu de forma simples, e a discusso foi esquecida quando ele se
empolgou com sua alegre revelao. Pelo menos foi o que ela achou. S mais tarde entendeu que,
longe de respeitar sua recusa em aceitar seu dinheiro e os presentes caros que ele poderia lhe dar,
Marco estava desconfiado e desdenhoso.
       Se ela tivesse prestado ateno quela mensagem, talvez no estivesse nessa situao
agora.


                                          CAPTULO TRS
       Eles viveram meses maravilhosos. Marco trabalhava muito, mas tambm gostava de
usufruir as boas coisas da vida. Ele aparentava ser o tipo de homem acostumado a ter o melhor.
Mas, ao mesmo tempo em que, s vezes, lamentava sua arrogncia, Emily admitia que estava
adorando as novas experincias que vivenciava com ele. Marco saa com ela algumas vezes
durante a semana, mas o melhor de tudo era que, como amante, ele no apenas satisfazia suas
fantasias sexuais, como as superava, levando-a a uma esfera de descobertas e deleites que jamais
imaginara existir.
       Em poucas semanas como amantes, Emily passou a conhec-lo to bem sexualmente que
com apenas um toque, ou um olhar, ela era capaz de compreender o que Marco desejava e
prontamente respondia.
       Marco era um amante exigente e magistral, que gostava de conduzir a situao e ensinar
novos prazeres. Muitas vezes a levava ao delrio em locais quase pblicos, e ela chegava a corar
s de lembrar. Frequentemente, o sexo se estendia por quase toda a noite. Emily era uma aluna
vida, que desejava cada vez mais com o passar do tempo e  medida que sua confiana sexual
crescia com os ensinamentos.
       No primeiro Natal que passaram juntos, Marco presenteou-a com um lindo diamante,
deixando-a  vontade para coloc-lo no anel que desejasse. Emily percebeu a surpresa de Marco
quando pediu que, em vez disso, fizesse uma doao para um orfanato de sua preferncia.
       Marco no disse nada mas, no aniversrio de Emily, levou-a para um refgio romntico e
fizeram amor at ela gemer de prazer. Ele presenteou-a com um par de brincos e disse:
       -- J enviei um cheque com o mesmo valor para uma instituio de caridade.
       Foi ento que ela percebeu que cometera um erro imperdovel, apaixonara-se por ele!
       Sim, como foi idiota ao deixar que isso acontecesse. Ele voltou para a cama, mas deitou-se
de costas para ela. No lado de fora, a ventania que comeara cedo batia contra a janela.
       Normalmente, o fato de estar segura e aquecida dentro do quarto enquanto a chuva caa
teria lhe deixado confortvel. Principalmente por estar protegida nos braos de Marco. Mas ela
no se sentia assim. Ser que ele estava se cansando dela?
       Marco podia ouvir a respirao suave de Emily atrs dele. Seu corpo ansiava pelo alvio
que teria se a possusse fisicamente, e por que no? Ele j havia decidido a quantia que estava
disposto a dar para Emily em recompensa ao tempo que haviam passado juntos. Por sinal, bem
generosa. To generosa que se sentia  vontade para continuar usufruindo os prazeres que
dividiam. Ele no podia ignorar o fato de que ainda desejava Emily. Outras mulheres com quem
tinha dividido a cama antes de Emily, inclusive mais experientes e ousadas sexualmente, o
haviam entediado rapidamente.
       O que o deixava ainda mais surpreso era que estava comeando a querer a companhia de
Emily fora da cama, conversar com ela sobre os negcios e deix-la persuadi-lo a fazer doaes
para instituies de caridade. Emily no aprovaria a recusa do av de Marco em fazer o menor
esforo possvel para melhorar a renda do povo de Niroli. O rei Giorgio no concordava que
educao poderia oferecer mais recursos  vida do pobre do que a ilha j oferecia.
       No, definitivamente Emily no era a amante ideal para o rei de Niroli. Mas, por outro
lado, ele ainda no era rei. Marco virou-se para observar a silhueta de Emily. As curvas de seus
seios fizeram-no lembrar como preenchiam perfeitamente as palmas de suas mos. Como
sempre, seu forte instinto sexual reagiu  proximidade de Emily. Ele j podia ter feito sexo mais
de mil vezes enquanto se relacionavam, mas isso no diminua o desejo que sentia agora. No
fundo, ele detectava o potencial perigo de tal compulso e preferiu afastar esses pensamentos.
Marco pretendia terminar o relacionamento antes de voltar para Niroli. Ele deveria se assegurar
de que nenhum vestgio de saudade ficaria em sua memria ou em seus pensamentos. Marco
estava certo de que Emily poderia ser facilmente substituda na cama. Se ele reconhecia algo
particularmente prazeroso nela, isso no significava que corria o perigo de se apaixonar para
sempre. Ele relaxou ao perceber o quanto era ridculo achar que poderia estar vulnervel por
desej-la.
       No momento em que Marco tocou Emily, ela sentiu que seu corpo tornou-se totalmente
submisso e ardente. Era um desejo familiar, que no conseguia controlar. Marco retirou a
coberta e um pequeno fio prata da luz do luar iluminou os bicos dos seios dela, revelando-os para
seu deleite. Ele acariciou-os, fazendo o corpo de Emily estremecer e arrepiar-se, enquanto se
curvava em um gesto simblico de seduo e oferecimento para seu amante.
       Marcou apertou as formas macias de Emily. Ela olhou para ele com os olhos cheios de
excitao, e aproximou-se. A nica coisa com que ele se importa- va agora era em possu-la. Seu
prazer aumentava ao testemunhar o xtase de Emily ao ser preenchida por ele, perdendo-se nela
e levando-a com ele. Marco se sentia golpeado por seus desejos e nada mais existia ao redor. Ele
afastou os cabelos dela e beijou-a nas partes mais ergenas do pescoo. Marco massagea-va os
seios de Emily eroticamente e pressionava seu membro rgido contra as coxas dela.
       Emily sorriu. Fazer sexo com Marco era entregar-se completamente. Mesmo quando
Marco a beijava casualmente, ele gostava de sentir todo o seu corpo encostado ao dela. E ela no
se incomodava, nem um pouco! Emily adorava ser possuda por Marco. Apenas em seus braos,
como agora, se entregava por completo aos sentimentos, em vez de lutar para tentar control-los.
Quando fazia amor com ela, Marco nunca hesitava em demonstrar seu desejo, permitindo que
ela liberasse todo o desejo apaixonado por ele. Havia algo quase pago na maneira como faziam
amor que, s vezes, a deixava um pouco surpresa. Sempre sintonizada com a disposio de
Marco, hoje ela sentiu maior urgncia por parte dele, o que a deixou ainda mais excitada. Emily
gemeu suavemente quando sentiu a boca de Marco no bico do seu sensvel seio e a mo dele
aceitou o convite das suas pernas abertas.
       Nos primeiros dias como amantes, ao perceber sua leve inabilidade sexual, ele a ajudou a
relaxar com champanhe e algumas brincadeiras suaves, antes de convenc-la a se posicionarem
nus diante de um espelho. Depois, cuidadosamente e de forma bastante sensual, ele revelou seus
prprios mistrios sexuais. Diante do espelho, Marco fez com que ela visse seus grandes lbios,
rseos e desejosos de prazer. Acariciava-os de modo que ela pudesse ver e sentir as prprias
reaes para, em seguida, concentrar-se naquele pequeno ponto to sensual e sensvel de Emily.
Ele a levou ao orgasmo diante do espelho, deixando-a com um olhar, ao mesmo tempo, chocado
e excitado, em xtase.
       Logo depois, Emily teve sua doce revanche. Virou a mesa e explorou o corpo de Marco
com mos e lbios vidos. Abriu aquelas pernas musculosas de modo que pudesse explorar o
sexo dele com todos os seus sentidos.
       Agora, enquanto ele explorava seu sexo quente, ela se contorcia, ansiosa pela recompensa
de prazer. Mas, dessa vez, ele no pretendia prolongar suas brincadeiras amorosas, partindo para
cima dela gemendo e penetrando-a de forma poderosa e compulsiva, com se no pudesse t-la
por completo, levando os dois com mais avidez e voracidade ao santurio que os esperava.
       Instintivamente, Emily se agarrou a ele e embarcou naquela turbulenta tempestade de
prazer.
       Marco se sentia tomado por uma estranha fora que o impulsionava a penetr-la com mais
fora e mais profundamente. Emily tremia e retribua essa intensa paixo que o dominava com
uma resposta idntica. Ela cravou as unhas nas costas de Marco, encorajando-o a possu-la e
preench-la. A excitao sexual e a umidade de Emily inundavam tudo ao redor e Marco
respondia aos estmulos sexuais. Uma necessidade primitiva tomava conta de Marco. Fazia
algum tempo desde a ltima vez em que usara camisinha para fazerem sexo; o relacionamento
deles j tinha tempo suficiente para ele saber que no precisava se preocupar com doenas e
Emily tomava anticoncepcional. Alm do mais, ele sabia o quanto ela gostava do contato direto
quando faziam sexo.
       Ser que Marco estava consciente do quanto a estava penetrando fundo? Emily parecia
tonta, e, quanto mais intenso e primitivo fosse o prazer, maior era a sensao do orgasmo para
ela. Ser que ele sabia que quando chegasse ao orgasmo ejacularia muito prximo ao tero dela?
Ele sabia o quanto ela o desejava? Ela soltou um gemido, quase um lamento, quando chegou ao
clmax, e agarrou-se a ele. Emily jogou a cabea para trs em um xtase pago  medida que o
prazer a fazia tremer, s para intensificar um segundo momento de prazer, maior ainda,
enquanto seus ossos pareciam derreter-se,  medida que Marco se perdia dentro dela.
       Emily piscava os olhos repetidamente. O que haviam acabado de experimentar juntos fora
incrivelmente prazeroso. Lgrimas de emoo escorreram por seu rosto. Seria possvel que
Marco transasse com ela daquela forma sem am-la? A mudana que percebeu no
comportamento dele poderia ser pelo fato de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, relutante em
admitir? Emily foi tomada por uma profunda ternura por Marco e pela vulnerabilidade que sabia
que ele jamais admitiria. Aninhou-se nele, aquecida por seu corpo e pela intimidade que tinham
acabado de vivenciar, e, acima de tudo, pela esperana que crescia dentro dela. Emily ensinaria a
ele o quanto o amor poderia torn-lo mais forte, e no enfraquecido. Ela mostraria, como j
vinha tentando, que era ele que importava e no as coisas que poderia oferecer a ela. Marco
nunca lhe confessara por que era to irredutvel com a ideia de no acreditar em amor nem
precisar dele. Emily deduziu que, ainda muito novo, Marco deveria ter sofrido com algum amor
no correspondido e jurara nunca mais se apaixonar. Para um homem orgulhoso como ele, tal
ferida deveria ser bastante profunda. Marco era muito reservado para falar sobre o passado e
sobre sua vida pessoal. Uma coisa que Emily aprendeu logo na relao deles era que ele se
fechava todas as vezes que ela tentava tocar em tais assuntos. Ento, o fato de ainda estarem
juntos deveria significar alguma coisa, ela admitiu, sonolenta. No poderia ser o amor que estava
sentindo por ela sem se dar conta?


                                       CAPTULO QUATRO

      Emily estava tendo dificuldades em concentrar-se no que sua ltima cliente falava. Seu
habitual profissionalismo estava comprometido com o recente cansao e as ondas de enjoo que
sentia nas ltimas semanas, provavelmente, algum vestgio de virose maltratada.
      Marco havia sado cedo para o trabalho, enquanto ela dormia, e deixou um bilhete dizendo
que tinha algumas coisas a resolver. No havia nada de estranho com sua sada cedo. Mas hoje,
por algum motivo, Emily sentia uma profunda necessidade em v-lo, estar com ele. Por qu?
Emily lamentou e sacudiu a cabea, na tentativa de se livrar daquela sensao. No adiantou
muito, a ansiedade permanecia. Ela olhou o relgio, j estava quase na hora do almoo. No incio
da relao, antes de Marco convid-la para morarem juntos, com certa apreenso e uma dose de
ousadia, Emily costumava fazer uma visita informal quando passava por perto do escritrio dele
e aproveitava para esper-lo.
      De repente, ela virou para a cliente e disse, firmemente:
      -- Lamento, mas preciso ir. Voc tem o meu e-mail, caso precise entrar em contato. --
Emily percebeu pelo olhar da cliente que no receberia nenhuma comisso por aquele projeto.
Mas pensou que estar com Marco naquele momento era mais importante que qualquer coisa.

      Marco estava de p ao lado da mesa de seu moderno escritrio, decorado por Emily. Sobre
a mesa, que ela lhe dera de presente, havia uma foto que tiraram quando comemoravam um ano
juntos. Agora, Marco analisava a foto.
      -- Os reis de Niroli recebem amor, Marco -- seu av lhe disse, quando ainda era
adolescente. -- Eles apenas no retribuem. Esto acima dos outros homens, no tentam
transformar desejo fsico em sentimentalismo. Eles no precisam. Voc est crescendo rpido e
logo descobrir que seu status real atrair as mulheres mais belas e predatrias. Elas lhe daro
seus corpos mas, em troca, tentaro conseguir dinheiro e posio. Tambm tentaro tramar,
mentir e trapacear na cairia, e se voc for idiota o suficiente para permitir, um dia elas lhe
presentearo com filhos bastardos que sero eternas lembranas da sua estupidez e um per-
manente perigo para o trono de Niroli. Voc pode ter os prazeres de todas as mulheres que se
oferecerem, mas lembre-se do que lhe disse. No final, se casar com uma mulher nobre e de
reputao moral impecvel, que lhe dar herdeiros legtimos. Seus nicos herdeiros, se voc for
esperto, Marco.
       Bem, ele estava sendo esperto, no estava? Marco indagou a si mesmo. E pretendia
continuar sendo. Ele olhou para a carta sobre a mesa, que chegara no dia anterior, com o braso e
o selo de Niroli estampados.
       Por isso havia ido para o escritrio to cedo. A carta era de seu av e contava os ltimos
detalhes do seu plano de abdicao. O povo de Niroli, escreveu o rei Giorgio, j estava sendo
preparado para a volta de Marco e para receb-lo como novo governante. Ele precisava falar com
o av, mas o protocolo o obrigou, no dia anterior, a seguir pacientemente um arcaico
procedimento para garantir que os privilgios dos antigos assessores do seu av no fossem
afetados. S ento poderia falar diretamente com o av. Marco pretendia fazer uma mudana de
assessores quando assumisse o trono. Seus planos eram introduzir uma mentalidade moderna e
inovadora no governo de Niroli, atravs dos cortesos de sua prpria gerao que concordavam
com sua maneira de pensar.

       Ele olhou para o relgio. Em exatos 20 minutos, o telefone de sua mesa tocaria e o oficial-
assistente do rei o colocaria em contato com seu av. Marco suspirou. Tinha carinho por seu
velho parente e sabia que Giorgio nutria um contido respeito por ele. Marco tambm sabia que
ambos eram muito parecidos e jamais conseguiriam compartilhar seus sentimentos. Em vez
disso, eles se conformavam com os papis que ado-taram na adolescncia de Marco, que olhou o
relgio outra vez. Tudo era apenas para garantir ao av que retornaria a Niroli assim que
resolvesse os negcios em andamento, coisa que poderia ser feita com um simples e rpido
telefonema, sem a necessidade desse demorado cerimonial.
       Um dos negcios em andamento referia-se a Emily e, claro, ele no gostaria de discutir o
assunto com o av. Ele estimou que ainda teria algumas semanas antes de partir e decidiu que
no faria sentido terminar com Emily at l. Um trmino simples, sem possibilidades de
retorno, era a melhor maneira de lidar com a situao. Ele diria que tudo estava acabado e que
deixaria o pas, e ponto final. Ele a levou para a cama como o simples Marco Fierezza, e no via
motivos para revelar sua verdadeira posio real agora. Emily deveria continuar conhecendo-o
como um rico em presrio, no como o futuro rei de Niroli. Era verdade que mais cedo ou mais
tarde ela descobriria quem ele era -- os paparazzi tinham uma verdadeira fixao pelo palcio real
de Niroli --, mas, at l, suas vidas j estariam totalmente separadas. A relao deles nunca teve
a pretenso de se tornar um compromisso. Marco deixou isso claro desde o incio. Por outro
lado, eles j estavam juntos h trs anos, ao passo que se entedia va com as outras namoradas no
terceiro ms. Marco sacudiu os ombros para se livrar dos pensamentos que insistiam em
mostrar-lhe o que no queria admitir.
       Repentinamente, Marco comeou a sentir um for te e selvagem cime sexual. O que era
isso? Por que cargas d'gua sentia uma fria visceral ao pensar em Emily saindo com outro
homem? Ele contraiu os l bios. Sua preocupao era com Emily, no com ele mesmo. Afinal,
ela era a parte vulnervel, no ele. O passado sexual de Emily era muito diferente do seu, e
somente por causa disso era natural que se preocupasse com o fato de ela no estar preparada
para lidar com um amante que poderia no trat-la to bem como ele o tinha feito.
       Marco olhou para o retrato dela, relutante em re cordar o primeiro dia em que a possuiu.
Ele esperava surpreend-la, mas no fundo quem foi surpreendido foi ele...
       Ele percebeu o quanto ela ficou animada quando ele entrou em sua loja e disse que
viajariam por alguns dias. Quando ele voltou para peg-la, mais tarde na quele dia, Marco pde
ver plenamente em seus olhos o quanto ela o desejava. Assim como ele a ela.
       Ele foi totalmente -- alguns diriam at que brutalmente -- honesto com ela ao declarar
que no tinha tempo para as bobagens emocionais ou para se apaixonar. Ele informou
calmamente que j havia termi nado relacionamentos anteriores pelo simples fato de suas
namoradas terem se declarado apaixonadas por ele. Emily recebeu o comunicado com a mesma
cal ma. Apaixonar-se por ele no estava em seus planos, ela garantiu. Estava to comprometida
quanto ele em ter um relacionamento baseado na atrao sexual. Emily sorriu e acrescentou que
aquela proposta era perfeita para ela. Marco sentiu sinceridade na declarao dela.
       Marco fez uma reserva para eles em um balnerio em uma pequena ilha particular
exclusiva para ricos e casais sem crianas. Tudo era projetado para atrair os casais e acolh-los
em total privacidade, alm de oferecer um servio discreto.
       Eles chegaram no final da tarde e caminharam pelos belos e estonteantes jardins. Marco
recordou como Emily segurava sua mo e do brilho em seus olhos, quando fizeram uma pausa
para apreciarem o pr-do-sol. Tambm lembrou que no resistiu e pegou Emily nos braos para
beij-la de forma to calorosa e sensual que a deixou trmula.
       Eles retornaram para o chal despindo-se pelo meio do caminho com avidez e pressa para
compartilharem um banho no luxuoso banheiro. A resposta fsica de Emily foi maior do que
Marco podia esperar. Ela no se conteve e compartilhou cada toque ntimo entre eles at que ele
a penetrasse. Marco ficou surpreso ao v-la tensa enquanto a penetrava, pois pensou que ela
estivesse to ansiosa para sentir o corpo dele dentro dela quanto ele para sentir o calor da carne
quente e mida ao redor dele.
       No incio, ele sups que Emily estivesse fazendo o gnero recatada, pensando que assim
pudesse excit-lo ao assumir uma postura inocente e indecisa. A frustrao o deixou menos
observador e mais impaciente do que normalmente era, da ele ter ignorado os sinais que o corpo
dela lhe dava e forado mais intensamente ainda. Nesse momento, ele ouviu o som abafado
emitido por Emily e percebeu a verdade: ela ainda era virgem.
       A primeira reao que Marco teve foi de uma raiva selvagem, alimentada pela frustrao
masculina e pelo seu orgulho inflado, provocada pelo fato de no ter imaginado a possibilidade.
Transar com uma virgem inexperiente e o possvel nus de responsabilidade que isso acarretaria,
tanto fsico quanto emocional, eram coisas que ele no queria.
       -- Que droga  essa? -- ele gritou. -- Tudo bem, eu sei sobre o seu casamento, mas pensei
que s porque..
       -- Porque o qu? Que eu pularia no primeiro homem que encontrasse? -- Emily revidou.
       Por baixo da agressividade na voz, Marco percebeu um tremor de incerteza no tom de
Emily. Com isso, sua raiva abrandou-se e ele ficou mudo, com um n na garganta.
       -- Bem, isso realmente passou pela minha cabea -- ela declarou. -- Mas, no fundo, eu era
covarde para levar essa idia adiante. Se voc quiser, pode culpar o meu av, mas transar com
um homem que eu no queria verdadeiramente s para me livrar da minha virgindade foi mais
difcil do que me entregar a um homem que eu realmente desejava.
       Marco deu de ombros displicentemente para no ter de lidar com aqueles sentimentos
novos que o invadiam, muito menos com os dela.
       -- Se voc pensa que estou contente por isso, deixe-me dizer uma coisa...
       -- Voc no precisa me dizer nada, Marco -- ela o interrompeu. -- Est na cara o que voc
sente.
       -- Eu no sei o que voc est pensando ou esperando -- ele disse, ignorando o comentrio
dela --, mas, a despeito do que queira acreditar, a maioria dos homens sexualmente maduros no
fantasia iniciar uma virgem! Eu, certamente, no! A razo pela qual a trouxe aqui era para que
pudssemos nos entregar aos desejos de duas pessoas experientes. Para mim, isso significa que
compartilharamos desejos fsicos um com o outro cientes das nossas prprias vontades e
expectativas.
       -- Sinto muito se voc acha que eu tenha vindo sob falsos pretextos -- Emily admitiu. --
Talvez eu devesse t-lo prevenido.
       -- Talvez?
       O desprezo na voz dele provocou uma resposta imediata.
       -- Eu no queria fazer o papel de "ainda sou virgem" s pela razes que voc mencionou
-- ela se de fendeu. -- Eu no queria que isso fosse um problema, nem estava certa de que voc
notaria.
       Marco lembrou o quanto ela ficou vermelha quan do ele a olhou com descrena.
       -- Eu realmente sinto muito -- ela se desculpou.
       -- Voc sente muito! Eu estou to decepcionado! -- ele comeou.
       -- Eu tambm -- Emily o interrompeu com tanta doura que a irritao anterior se
evaporou.
       -- Decepcionada, mas virgem e apreensiva? -- ele se sentiu obrigado a ressaltar.
       -- Sim, mas nenhuma dessas condies  permanente, ou ? -- ela respondeu.
       -- Voc confia em mim para lidar afetivamente com as trs?
       -- Eu confio em voc para tomar isso possvel para ns -- ela o corrigiu carinhosamente. --
Acredito que a participao em um acontecimento conjunto  feita para deleite de ambos,
mesmo que nesse momento em particular eu seja a parte aprendiz.
       Marco no estava acostumado a ser provocado ou a compartilhar risadas durante um
relacionamento ntimo, mas logo descobriu que dividir alegria podia ter suas prprias qualidades
afrodisacas.
       Ele fez amor com ela to lentamente que foi o primeiro a admitir que a resposta
entusiasmada dela no final foi a grande recompensa. Foi ela quem o encorajou a fazer mais
rpido e mais profundamente, at que ele estivesse to perdido quanto ela no prazer que
compartilhavam. No to perdido a ponto de no testemunhar o ar de deleite nos olhos dela
quando chegou ao orgasmo...
       Por que diabos estava pensando nisso agora? Isso no existia mais, eles no existiam mais,
ou pelo menos deixariam de existir em breve.
       Algum bateu gentilmente na porta do escritrio. Marco franziu a testa. No esperava por
ningum e havia pedido  assistente para no ser incomodado. Ainda estava surpreso quando a
porta se abriu e Emily entrou sorrindo para ele. No era comum Marco ser pego de surpresa por
algo ou algum, mas nesse caso...
       -- Minha reunio terminou mais cedo -- ele ouviu Emily dizer, despreocupadamente. --
Ento resolvi vir at aqui para ver se voc estava livre para almoarmos.
       Como ele no respondeu, ela fechou a porta e caminhou na direo dele.
       -- Ou talvez pudssemos esquecer a sada e o almoo. Lembra, Marco, como
costumvamos... O que h de errado? -- ela perguntou, em dvida.
       O sorriso de Emily desapareceu e Marco se deu conta de que havia demorado muito para
reagir depois de sua chegada.
       Normalmente, o fato de estar desatento seria sua principal preocupao. Mas por algum
motivo ele percebeu que havia magoado e chateado Emily, e surpreendeu-se com uma sbita
vontade de desculpar-se. Desculpar-se? Ele?! Marco estava atnito com seu prprio impulso, fora
do normal. Ele nunca se desculpava com ningum.
       -- Nada de errado -- ele disse secamente, sabendo que algo estava muito errado com ele
por ter se sentido daquela maneira. No poderia estar se sentindo culpado, ou poderia? Uma voz
interior crtica e traidora salientava: Afinal de contas voc mentiu para ela e est prestes a abandon-
la...
       Ela sabia as regras bsicas, Marco disse a si mesmo. O acesso de conscincia o deixou mais
irritado ainda e ele descontou essa irritao em Emily.
       -- Sim, h -- Emily insistiu. -- Voc est me olhando como se eu fosse a ltima pessoa
que quisesse ver.
       -- No seja ridcula, eu s no esperava v-la. Olha, no posso sair para almoar. Estou
esperando uma importante ligao a qualquer momento e depois disso tenho um compromisso.
-- Isso no era totalmente verdade, mas ele no queria, de jeito nenhum, que Emily aguardasse
enquanto ele conversava com seu av. Primeiro, porque ele no sabia o quanto demoraria na
ligao e, depois... depois porque ele ainda no estava pronto para contar a Emily o que ela pre-
cisava saber.
       Porque ele ainda no conseguia negar o prazer que sentia ao fazer amor com ela, sua
conscincia zombou: Tem certeza de que estar pronto um dia? Ele se livrou imediatamente daquele
indesejado pensamento, mas o fato de ter pensado o deixou mais irritado.
       -- A sra. Lawson deve ter avisado que eu no queria ser incomodado -- ele comentou com
Emily.
       Ela percebeu a impacincia em sua voz e desejou no estar ali. A arrogncia de Marco, s
vezes, a fazia esquecer o quanto ele a magoava facilmente. Emily era orgulhosa demais para
permanecer na sala e deix-lo presenciar sua dor.
       -- A sra. Lawson no estava quando entrei.
       -- No estava l? Ela  minha assistente, pelo amor de Deus. Onde ela est?
       -- Ela provavelmente foi ao toalete, Marco. No  culpa dela -- Emily salientou. -- Sinto
muito se no era uma boa hora -- ela sorriu, sem graa. -- Deveria ter confirmado com voc
antes de vir.
       -- Sim, deveria -- Marco concordou secamente. Em alguns minutos o telefone tocaria e,
se ele atendesse, ela escutaria Marco falando alto para compensar a surdez de seu velho av.
       Emily arregalou os olhos ao perceber a rejeio de Marco e ainda estava parada olhando
diretamente para ele quando comeou a empalidecer. Marco a tratara com se fosse uma
desconhecida.
       -- No se preocupe com isso. Sinto muito por ter incomodado -- ela tentou falar, mas
percebeu a fragilidade da prpria voz. Nesse momento, desejava estar o mais longe possvel de
Marco e daquela droga de escritrio. Estava prestes a chorar, e tudo que no queria era deixar
Marco ver o quanto a tinha humilhado. Emily abriu a porta, saiu e mal parou para observar a
cara de espanto da assistente ao v-la. Ela correu para fora do escritrio com a cabea baixa e as
lgrimas presas na garganta.
       O que havia com ela?, Emily se perguntou ao entrar no txi. No era uma menininha
inexperiente para reagir de forma exagerada a cada n na garganta! Ela j passava dos 20 anos,
era divorciada e j estava com Marco por quase trs anos! A vida sexual deles havia lhe deixado
mais exuberante sexualmente. Isso j era praticamente palpvel no primeiro ano em que
estavam juntos. Uma cliente chegou at a comentar que Emily irradiava sensualidade.
       Duvidava que exibisse esse magnetismo sexual agora, admitia com tristeza.
       Ela entregou ao motorista do txi o endereo do apartamento de Marco. Apartamento do
Marco. Ela percebeu que era assim que sentia. No era o apartamento deles, apesar de ele ter dado
carta branca para que o reformasse de acordo com o gosto dela. Posses materiais, mesmo para a
casa de uma pessoa com quem ela mantinha uma ligao sentimental to forte, no significavam
nada se no envolvessem as emoes certas. Por que ser que isso aconteceu? Por que se
apaixonara por Marco? Por que no poderia ter ficado como ela era, extremamente consciente do
nvel de intimidade sexual, na superficialidade do desejo carnal que sentiam um pelo outro,
satisfeita com o alvio e o prazer de ter sido tirada por ele da escurido e daquele lugar
desgraado que tinha habitado depois do divrcio e passado para o deslumbrante cenrio de
inimaginvel beleza que era a intimidade que dividiam? Por qu? Por que no se contentou com
aquilo? Por que teve de se apaixonar?
      Emily tremia e se afundava no banco do txi. E por que, alm de se apaixonar, ainda se
atormentava com a esperana de que um dia as coisas poderiam mudar, que um dia ela pudesse
olhar nos olhos dele e perceber que ele a amava? A esperana de que um dia isso acontecesse
algumas vezes parecia to frgil e irreal que ela temia por si mesma. Medo da vulnerabilidade de
uma mulher que precisava tanto de um homem em particular e que estava prestes a agarrar-se a
um apoio to tnue. Mas o que mais poderia fazer? Ela poderia revelar exatamente como se
sentia. Emily pressionou os lbios, culpada e certa de que no se abriria com ele. Porque ela
estava com medo de perd-lo... Por que estava se permitindo ser levada por questes to
desconfortveis e dolorosas? Por que essas questes insistiam em escapar do lugar onde ela
tentou escond-las? Que tipo de mulher era ela para viver mentin-do para o homem que amava?
Que tipo de relao era essa em que o homem deixava claro que no havia espao para o amor na
vida que gostaria de levar?
      Emily pagou a corrida e esperava trmula pelo troco. Seu estmago j comeava a
embrulhar. Dessa vez, o motivo era a rejeio de Marco  sua visita. Se bem que ela devia
admitir que sentira tanta nusea pela manh que nem conseguira tomar o caf. Agora estava
comeando a se sentir ligeiramente tonta e fraca.
      Comeava a chover quando Emily desceu do carro, Por que no poderia falar com Marco?
Afinal, erarn amantes e compartilhavam grande intimidade fisica. Intimidade fsica, sim, mas
nenhuma intimidade emocional. A infncia de Emily a ensinou a ser cautelosa; ao demonstrar
suas necessidades. Era de sua natureza esconder sua parte mais vulnervel. Somente nos braos
de Marco, no auge da intimidade, sentia-se segura o suficiente para permitir que seu corpo
revelasse que havia no seu corao, mesmo sabendo que ele no era capaz de reconhecer.

       -- Sim, vov, entendo, mas no posso fazer milagres No posso voltar para Niroli antes
do final do ms como j tnhamos combinado. -- Marco tentava con trolar sua reao  medida
que seu av argumentav em voz alta, quando o interrompeu secamente.
       -- Certo, admito que no tenha concordado. Mas isso no altera o fato de eu no poder
retornar em breve.
       O av bateu o telefone. Marco recolocou o fone no lugar, levantou-se e virou-se para olhar
pela janela. Chovia. Era bvio que seu av estava furioso por ele ter se recusado a alterar a data
de sua ida para Niroli. Marco no estava preocupado com a raiva do av, isso no o aborrecia
mais. Marco olhou irritado para o relgio: estava com fome e precisando da calma companhia de
Emily.
       Marco se surpreendeu com o rumo dos seus pensamentos. No fazia sentido pensar em
Emily desse jeito se pretendia terminar o relacionamento com ela! Era melhor se concentrar nas
coisas que no gostava nela, como... o modo como ela insistia em manter os compromissos
profissionais, mesmo quando ele tinha outros planos. Esta  a nica crtica que pode fazer?, uma
voz interior crescente e irritante perguntava ironicamente. Marco sorriu, mentalmente
reconhecendo a ironia de seus pensamentos. Sim, era verdade que, de vrias maneiras, Emily era
a amante perfeita para o tipo de homem que era enquanto vivia em Londres. Mas ele no seria
mais esse homem por muito tempo.
       Quando chegasse a hora de encontrar a amante real, ela teria que ter qualidades que Emily
no possua. Principalmente a de ter que aceitar um possvel marido mais velho. Esse era um
tipo de protocolo real de Niroli, o qual, na opinio de Marco, se mantinha no sc. XIX. Marco,
certamente, pretendia promover mudanas que beneficiassem mais o povo de Niroli do que seus
reis. Mas talvez houvesse certas tradies que deveriam ser mantidas. Emily no poderia
continuar como sua amante, mas isso no justificava a forma como a tratara. Podia ter sugerido
que ela fosse para um de seus restaurantes preferidos e o esperasse l.
       Marco pensou em ligar para Emily e sugerir que ela o encontrasse para almoar, mas
desistiu. Ela no era o tipo de mulher que aceitava sugestes tolas quando estava de mau humor.
Apesar do tempo que estavam juntos, s de pensar nela ele j ficava excitado. Marco pegou o
telefone e ligou para a loja de Emily.
       A assistente atendeu e informou:
       -- Emily no est, Marco. Ela ligou h poucos minutos dizendo que trabalharia em casa.
Ainda no est totalmente curada da virose.
       Marco respondeu de forma neutra. Ele sempre estava no seu melhor estado de sade, mas
agora seu nimo necessitava das carcias que s Emily poderia fazer. Ela possua um inesperado
e rido senso de humor que, aliado  sua inteligncia e percepo aguada, conseguia faz-lo rir
quando menos esperava. Mas ele reconheceu que, ultimamente, o senso de humor de Emily no
andava essas coisas. Marco ficou surpreso ao perceber o quanto desejava estar com ela na quele
momento. Era impressionante o que um pouco de culpa provocava, pensou. Marco tambm
decidiu trabalhar em casa.
       A melhor maneira para amenizar os aborrecimentos pelo que Marco sabia, era na cama,
onde rapidamente faria Emily esquecer qualquer coisa, exceto o desejo que sentiam um pelo
outro...

       Emily fez uma cara feia ao ouvir a mensagem que uma de suas clientes deixara e decidiu
responder por e-mail em vez de ligar. Seu laptop estava no escritrio que ela e Marco dividiam.
Emily tomou o caminho do escritrio, ignorando firmemente o mal-entendido que tivera com
Marco mais cedo, quando ele se recusou a almoar com ela.
       Cinco minutos depois, estava parada diante da janela do escritrio, sem lembrar do
motivo que a levara l, o laptop. Emily estava horrorizada com o envelope que segurava. Ondas
de calor seguidas de calafrios percorriam seu corpo, que tremia inteiramente diante do choque. A
vista embaada mal lhe permitia enxergar o endereo no envelope, mas a parte superior esquerda
chamava sua ateno: era o braso real, seguido do endereo do destinatrio: Prncipe Marco de
Niroli...
       Emily no ouviu a chave de Marco na porta do apartamento, muito menos ele chamando
por ela. Estava to chocada que no percebia nada ao redor. Aquela imagem estava cravada em
seu crebro de um modo que jamais poderia esquecer. O estado de hipnose foi quebrado quando
Marco abriu a porta e entrou, mas sua chegada no diminua a dor de Emily. Ela agarrou-se ao
envelope e, com a voz alta e embargada, disse:
       -- Bem-vindo, Alteza. Suponho que deva reverenci-lo.
       Ela esperou, rezando para que ele risse e afirmasse que era um mal-entendido, que o
envelope endereado ao prncipe Marco de Niroli era um engano idiota.


                                       CAPTULO CINCO

      Como a pequena chama vulnervel de uma vela na escurido, sua esperana se apagava
timidamente. Ouando finalmente ela encarou Marco, a esperana se extinguiu de vez. Era o fim.
Agora, nesse minuto, eles tinham terminado. Emily sabia que no precisaria de palavras, a dor
daquela descoberta golpeava seu j debilitado corpo.
      -- Devolva isso -- Marco exigiu, tirando o envelope das mos dela.
      --  muito tarde para destruir as evidncias, Marco.
      -- Emily disse, gaguejando. -- Agora eu sei a verdade. Tambm sei o quanto mentiu para
mim todo esse tempo, fingindo ser algo que no era, me deixando pensar... -- Ela cravou os
dentes no lbio inferior tentando, com isso, afastar a outra dor. -- Voc acha que eu no li os
jornais? Acha que o povo de Niroli sabe que o seu prncipe  um mentiroso? Ou mentir no tem
importncia quando se  um membro da famlia real? -- ela o desafiou.
      -- Voc no tinha o direito de mexer na minha mesa -- Marco revidou o ataque
furiosamente, odiando ter sido pego desprevenido e colocado na posio de culpado. Ele
procurou acusar Emily. -- Pensei que tivssemos concordado que nossos papis pessoais fossem
privados -- ele respondeu, agressivamente -- Eu confiei em voc...
      -- Confiou? Foi por isso que escondeu este envelope por baixo de tudo? -- Ela o desafiou,
negando com a cabea para responder sua prpria pergunta. --No, voc no confia em mim,
Marco. Voc no confia em mim porque sabe que no posso confiar em voc, e sabe disso porque
 um mentiroso. -- Emily no se sentia bem, quase no conseguia respirar. -- Tudo o que pensei
que soubesse sobre voc  baseado em mentiras. Voc no  apenas Marco Fierezza, voc  o
prncipe Marco de Niroli. Voc  uma mentira, Marco...
      -- Voc est levando para o lado pessoal. A razo pela qual ocultei meu status real no
tem nada a ver com voc. Foi uma deciso que tomei antes de nos conhecermos.
      -- Como pode dizer isso? Tem tudo a ver comigo, e se voc tivesse algum vestgio de
decncia ou moral, saberia disso. Como pde mentir sobre quem  e ainda assim dividir comigo
uma vida de intimidade? Como; pde conviver consigo mesmo sabendo que os outros, no
apenas eu, acreditavam, aceitavam e confiavam em voc, quando todo o tempo...
      -- Pare de ser to ridiculamente dramtica -- Marco exigiu com firmeza. -- Voc est
fazendo tempestade em copo d'gua.
      -- Tempestade? Quando acabo de descobrir que voc me enganou o tempo todo em que
estivemos juntos? Quando me contaria, Marco? Talvez planejasse embora sem me dizer nada.
Afinal, o que significam os meus sentimentos para voc?
      -- Significam muito -- Marco a interrompeu. -- E foi em parte para proteg-los e a voc
que decidi no inform-la das mudanas de circunstncia, quando meu av anunciou que
pretendia afastar-se do trono e transferi-lo a mim.
      -- Proteger a mim? -- Emily estava furiosa. -- Transferir o trono? No precisa continuar,
Marco. No  de estranhar que voc tenha me avisado, quando me levou para a cama pela
primeira vez, que tudo o que queria era sexo. Voc sabia que era o nico tipo de relacionamento
que poderia existir entre ns! Voc sabia que um dia seria o rei de Niroli. No h dvida de que
pretende se casar com uma princesa. Ela j foi escolhida para voc, sua noiva real?
      -- No.
      Emily sacudiu os ombros desdenhosamente.
      -- No precisa responder, porque eu no posso acreditar em voc, no agora.
      -- Emily, escute. Isso j foi longe demais. Voc est sendo ridcula. Sei que ficou um
pouco chocada, mas...
      -- Um pouco chocada!
      Quando ela virou e foi na direo da porta, Marco perguntou:
      -- Aonde voc vai?
      -- Arrumar minhas coisas -- Emily informou. -- Estou indo embora, Marco, agora! Eu
no posso e no ficarei aqui com voc. Eu no quero mais voc.
      -- No seja estpida. Para onde voc vai? Esta  sua casa.
      -- No, este  o seu apartamento, nunca foi minha casa. Eu tenho a minha prpria casa,
lembra? -- ela o desafiou.
      Marco franziu as sobrancelhas
      -- Mas sua assistente est morando l.
       -- Ela estava morando l, mas foi morar com o namorado. No que isso ou qualquer outra
coisa da minha vida lhe diga respeito, Alteza.
       -- Emily -- ele tentou se aproximar dela, mas ela se esquivou.
       O olhar de raiva e desprezo o deixou irritado. Ela o acusava de mentira e fraude, mas e as
reaes dela? E o fato de ter mexido nos seus papis? As acusaes de Emily feriram seu orgulho.
Agora que reconhecia no deter mais o controle da situao e que ela o estava deixando, Marco
sentiu o despertar de todo o seu machismo. Ela pertencia a ele, pelo menos at ele decida
terminar a relao.
       Emily arregalou os olhos, chocada, quando os dedos dele apertaram seu pulso e ela pde
perceber um ar de excitao no olhar dele.
       -- Largue-me -- ela exigiu. -- Voc no espera...
       Ele no a deixaria ir, Emily percebeu. Sentiu um tremor percorrer sua espinha, e no era
medo.
       -- O que eu no espero, Emily? -- ele repetiu sua vemente. -- Isso significa que no a
levarei mais para a cama,  isso que ia dizer? Que eu no posso mais toc-la ou abra-la?
       Emily j estava indo na direo da porta do escritrio quando ele se adiantou, passando
por ela e batendo a porta. Ento, ele apoiou as duas mos na porta, deixando Emily presa entre
seus braos. Uma onda de excitao a envolveu, fazendo com que lembrasse dos primeiros dias
da relao, quando s de saber que Marco a desejava era o suficiente para deix-la tremendo de
desejo. Exatamente como se sentia agora. Ela tentou negar no apenas seu desejo, mas as inten-
es de Marco tambm. As palavras ficaram presas na garganta. Por baixo da l de seu suter ela
podia sentir os bicos dos seios arrepiando e um forte desejo no peito. Quanto tempo fazia que
no se sentia assim? H quanto tempo Marco no se comportava desse modo? Tanto tempo que
ela nem se lembrava. Tanto tempo que, por causa disso, j no conseguia resistir  sua seduo.
       O corao de Emily saltava. A presso no peito desceu pela barriga para provocar seu sexo,
fazendo-o pulsar de excitao e desejo. Ela sabia que deveria estar horrorizada com a prpria
reao diante do que acabara de descobrir e determinada a no permitir que ele a tocasse, enojada
s de pensar nisso. Mas Emily reconhecia que no se sentia assim. Muito pelo contrrio, ela o
desejava to intensamente que se sentiu completamente dominada.
       --  isso que voc ia me dizer, Emily. Que eu no provocarei mais desejo em voc, que
no posso fazer isso...? -- Ele passou a ponta do dedo pelo pescoo dela, provocando um violento
tremor ertico. Ele estava mais prximo dela, to prximo que ela podia sentir o perfume
familiar da colnia de Marco e o calor da excitao em seu corpo. Aquela poderosa e sutil
sexualidade masculina a deixava derretida e excitada, mesmo que sua mente dissesse que deveria
resistir que este no era o modo correto de reagir, se quisesse que ele acreditasse no que ela
dissera.
       Ela poderia dizer algo, mand-lo parar, dizer que eles no deveriam... mas sabia que no
conseguiria Assim como tambm sabia que sua mais profunda poro feminina desejava essa
demonstrao de masculinidade da parte dele, ansiava por uma ardente onda de desejo em si
mesma, assim como o calor e a luxria que invocavam sabe-se l de onde. Emily sabia que teria
conseguido sair antes que ele segurasse a porta e tambm que ele no a teria detido. Mas a
verdade  que no queria... que seu corpo estava tomado por um misto de raiva e desejo
provocados pela determinao de Marco em confront-la com seu poder de seduo.
       -- Mas isso seria uma mentira, no seria? -- Marco a desafiou suavemente, enquanto
continuava com seu cruel ataque sensual, lambendo o pescoo de Emily entre uma palavra e
outra e fazendo-a prisioneira do prprio desejo. --No seria? -- ele insistia, enquanto passava a
mo por baixo do suter e abria o suti de Emily, liberando seus seios. Um lamento torturado e
quase inaudvel saiu da garganta dela. -- Voc quer mais? -- ele perguntou, com a voz rouca e
suave.
       -- No! -- Emily mentiu. Ela sentia a mo de Marco apalpando seu seio e acariciando o
bico com a ponta dos dedos. Emily sabia que no resistiria por muito tempo  fora do prprio
desejo. Ela soltou um gemido de rendio, procurando por ele cegamente e puxando a cabea de
Marco ao encontro da sua. Os lbios de Emily buscaram os de Marco e ela se deixou ser
explorada por sua lngua.
       Ela podia sentir a masculinidade de Marco fazendo presso contra o seu corpo. Emily
visualizava mentalmente aquele corpo masculino nu, to familiar depois de tanto tempo juntos.
De olhos fechados, imaginava aquele membro grosso e rgido saltando do meio dos plos
crespos. Ela quase podia sentir aquela forma to sedutoramente quente ao toque e respondendo
s carcias de seus dedos e boca. Decididamente, desceu a mo por entre seus corpos para toc-lo,
espalhando os dedos na sua ereo e segurando com firmeza. Um clamor profundo de satisfao
saiu de sua garganta  medida que o sentia mais excitado e pulsante. O clamor tornou-se um
lamento de urgncia descontrolada enquanto ele, rapidamente, tirava sua saia.
       Nem nos primeiros dias em que estavam juntos Emily experimentou esse grau de intensa
necessidade, reconheceu. Isso era mais ousado do que tudo que j tinha sentido; mais ousado,
mais feroz e voraz. O desejo sexual de uma mulher que precisa ser saciada.
       Todos os medos contidos e que atrapalhavam sua entrega anteriormente foram
descartados to facilmente quanto suas roupas, assim como todos os obstculos que no
permitiam que ela tivesse tudo o que poderia. Marco os estava conduzindo para mergulha-rem
juntos naquele turbilho sem volta.
       Os dedos trmulos de Emily puxavam os botes da camisa e da cala de Marco, e ela foi
deliberadamente interrompida quando Marco cravou os dentes no bico de seu eriado seio.
Emily arfou e gemeu, incapaz de fazer qualquer outra coisa a no ser ceder  intensa sensao
que ele despertava. O prazer era tanto que beirava o insuportvel, ela pensou. E, ainda assim, era
tudo o que desejava, no poderia ser com outro homem, ela no conseguiria ser to desinibida
com mais ningum.
       -- Quer que eu pare? -- Marco sugeriu, refrescando com a respirao a pele ardente de
desejo de Emily, enquanto as pontas de seus dedos continuavam brincando com o bico do seio
dela e sua boca buscava mais prazer em seu corpo.
       Emily no conseguia falar, mal conseguia ficar de p. Mas Marco sabia que ela no
desejava que ele parasse. Emily passou as mos pelo peito mido e nu de Marco,
deliberadamente curvando a cabea para passar a ponta da lngua pela sua pele e sentir o sabor da
virilidade no corpo dele, enquanto aspirava o cheiro afrodisaco que ele emanava. Em momentos
como esse, s o cheiro dele era suficiente para deix-la fraca de desejo.
       A dor e o calor que a torturavam internamente s poderiam ser saciados quando sentisse a
rigidez de Marco preenchendo-a e completando-a. Ela sentia uma onda de calor provocada pela
contrao de seus msculos com a necessidade de ser preenchida.
       -- Agora, Marco -- ela o encorajava. --Agora!
       Ao perceber a demora, ela olhou para ele. Era possvel perceber o perigo nos olhos dele, a
penumbra que insinuava o desejo de puni-la e desafi-la, forando-a a reconhecer a supremacia
dele, sua habilidade em controlar, provocar e saciar os desejos de Emily; Era muito tarde para
tentar fazer o jogo dele e negar seu triunfo, tentando fingir que no o desejava. A necessidade
que Emily sentia era muito grande e imediata. Agora, nenhum preo era alto o suficiente para
pagar a satisfao que tanto suplicava. Ela tentou resistir...
       -- Agora! -- repetia.
       Por um segundo, Emily achou que ele fosse se recusar, mas ele se aproximou e levantou-a
para que suas pernas ficassem encaixadas em seu quadril, enquanto a penetrava firme com um
longo, lento e deliberado movimento, fazendo-a estremecer violentamente. Quando ele se
esquivou um pouco, os msculos de Emily contraram-se em protesto, mas logo foram re-
compensados por uma segunda e profunda penetrao. O intenso prazer deixava Emily mida.
Instintivamente, ela o prendeu com os msculos, saboreando e prolongando a sensao.
       Ela sentia o calor da respirao dele em sua orelha, a ponta da lngua seguindo as linhas de
seu pescoo. Todo o seu corpo era possudo por um prazer to intenso que poderia mat-la.
       -- Marco... -- ela resmungou seu nome como um pedido feminino, enquanto ele a
penetrava mais profunda e rapidamente.
       -- Mais... mais. Marco... mais! -- ela implorava arfando alto, deleitada, enquanto ele
correspondia com movimentos mais rpidos e ritmados. Ele os levou ao xtase, deixando-a to
relaxada que ela desmoronou em cima dele, trmula.
       O calor da fria que o conduzia foi diminuindo Quando deveria sentir-se triunfante e
satisfeito por ter feito Emily reconhecer que ainda podia excit-la Marco s conseguia sentir
uma absoluta conscincia de que tinha cruzado uma fronteira jamais rompida. Ao forar Emily a
ceder ao desejo, ele tambm se forou a reconhecer que necessitava dela. Uma necessidade
passageira, despertada por uma raiva justificvel, garantiu para si mesmo. No significava nada
se levasse em conta toda a sua vida.
       -- Acho que ns dois precisvamos disso -- ele disse friamente. -- Talvez tenha sido um
ajuste para o trmino do nosso relacionamento, um tributo  atrao mtua que nos uniu.
       Emily no acreditava no que tinha feito e em como havia se trado. Ela no conseguiria
tolerar o fato de Marco estar pensando o quanto tinha sido estpida e de que, um dia, ela havia
sonhado em v-lo to apaixonado por ela quanto ela estava por ele. Uma onda de irritao tomou
conta de Emily, no por Marco, mas por si mesma. Como havia sido tola ao no enxergai a
realidade. Se Marco realmente a amasse, teria lhe contado a verdade, mas ele no o fez, nunca o
faria. Ela se enganou tanto quanto Marco a enganou. Ela era a grande vil de si mesma. A
trrida necessidade de sexo agora era transformada em uma forte dor, provocada pela raiva que a
consumia. Seus sonhos foram rrastados lamentavelmente desprezados. Marco era um estranho
para ela, da mesma forma que ela era uma estranha para si mesma.
        -- Era atrao mtua, mas agora talvez seja desprezo mtuo -- ela respondeu
enfaticamente. -- No sou mais aquela garota inocente de antes, Marco.
        -- Isso significa o qu? -- ele a desafiou, intrigado.
       -- Significa que aprendi bastante sobre sexo com voc para saber que nem sempre ele 
usado como uma expresso positiva de emoo. E claro que eu tenho conscincia de que ns
nunca dividimos uma intimidade emocional. -- Emily admitia que queria dizer que Marco
nunca esteve envolvido emocional-mente com ela, enquanto ela precisou se esforar para no se
envolver, quando isso era o que mais desejava. -- Mas ns devemos admitir que o rompimento
de qualquer relacionamento, mesmo um como o nosso, traz  tona coisas que no so fceis de
aceitar.
       Marco olhou para ela, preocupado. Agora, ela estava indo alm dos fatos sobre o trmino
da relao, mais do que Marco esperava, e ele no gostava disso! Por outro lado, ele estava sendo
ridculo. Deveria sentir-se aliviado por ela estar sendo to consciente, principalmente depois
daquela exploso de raiva desnecessria que teve.


                                          CAPTULO SEIS

       Do avio real, Marco olhou para a pista do aeroporto de Niroli, onde um grupo de
cortesos e oficiais formalmente vestidos o esperava. Marco sorriu ironicamente ao pensar no
uniforme pesado, com detalhes dourados e cheio de medalhas que seu av lhe enviara. As instru-
es eram para que ele usasse o uniforme ao desembarcar, mas Marco decidiu vestir seu prprio
terno.
       Emily teria apreciado e entendido sua deciso. Se bem que ela, provavelmente, acharia
graa e o teria provocado a vestir aquele uniforme inegavelmente belo e magnfico. Emily... ele
tentou se livrar das lembranas e das imagens erticas de Emily deitada em sua cama, mas j era
tarde. Ela estava l, sorrindo para ele, desejando-o, assim como ele sentia sua falta. Que droga
era essa?
       Emily continuava invadindo seus pensamentos, onde no tinha mais o direito de estar!
Sua sada abrupta do apartamento o fez antecipar a partida, para alegria de seu av.

       A porta do jatinho real foi aberta e Marco desceu as escadas, enfrentando o pr-do-sol de
Niroli. Por alguns segundos, ficou imvel no alto dos degraus, no porque era o futuro soberano
da ilha, mas porque era um dos filhos que retornava. Ele quase se esquecera do incomparvel
cheiro do mar e da luz do sol. Marco sentiu a emoo aflorar em seus olhos. Era a sua casa, o seu
pas, e a multido enfileirada era o seu povo. Muitos deles no tiveram o benefcio de conhecer
um mundo mais moderno, mas ele pretendia mudar isso. Aos mais jovens de Niroli daria a
oportunidade que as regras antiquadas de seu av haviam negado. Determinado, Marco
caminhou.
       Ele aproximou-se do ministro mais antigo de seu av, que o cumprimentou com um
tradicional abrao. Marco ajustou os passos at a limusine conversvel que o aguardava.
       Este seria um momento de triunfo, o povo endossando a fora que adquiriu ao se tornar
um homem independente. Em breve, o poder da famlia real de Niroli seria seu e ele tomaria o
lugar do av para cumprir o prprio destino. Por que, ento, no se sentia mais animado e por
que havia aquela sensao de vazio e perda?
       O desfile comeou, a multido que aguardava vibrava, crianas agitando bandeiras de
Niroli e se inclinando perigosamente sobre a estrada para v-lo melhor. Marco levantou o brao
e comeou a acenar. O ar refrigerado da moderna limusine o protegia do calor do meio-dia. Mas
e as pessoas? Elas devem estar sentindo calor, Marco. Ele podia escutar Emily como se ela estivesse
sentada ao seu lado. Irritado, livrou-se do pensamento. Marco inclinou-se para a frente, batendo
no vidro que o separava do motorista e do segurana armado.
       -- Alteza? -- o segurana perguntou.
       -- Pare o carro! -- Marco ordenou. -- Eu quero descer e caminhar. -- Quando ele tentou
abrir a porta o segurana olhou apavorado.
       -- Tem certeza? -- ele protestou. -- Pode no ser seguro.
       -- Essas pessoas so nosso povo, no nossos inimigos.
       A multido silenciou ao ver Marco descer da limusine. No havia registro na histria de
um ato to informal de um governante. Marco apertou a mo calejada dos trabalhadores, seu
sorriso provocava alvoroo nas mulheres.
       Uma mulher mais velha saiu da multido para alcan-lo. Pelos trajes, Marco percebeu
que era uma pessoa das montanhas, com as costas curvadas pelos anos de trabalho nas
plantaes de laranja e nos vinhedos. Mas ainda havia um brilho de orgulho em seus olhos,
quando estendeu para ele uma carteira de couro.
       -- Alteza, aceite este humilde presente -- ela implorou.
       A velha camponesa dificilmente poderia arcar com as despesas de um presente. Marco
sabia que era ele quem deveria dar alguma coisa para ela, por isso no ficou surpreso ao perceber
a raiva e a hostilidade no rosto de um jovem miseravelmente vestido ao lado dela.
       --  seu neto? -- Marco perguntou, enquanto agradecia o presente.
       -- Sim, , majestade, mas ele me envergonha com seu olhar mal-humorado e a falta de
apreo com todos os da ilha.
       --  porque no temos nada! -- o jovem exclamou, com o rosto corado de raiva. -- No
temos nada, enquanto outros tm tudo! Ns viemos para a cidade e vemos os estrangeiros com
iates e roupas caras. Nosso rei os recebe enquanto ns, habitantes da montanha, no temos nem
eletricidade.
       De repente, como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, o humor da multido ao redor de
Marco mudou Ele percebeu a raiva no rosto de um grupo de jovens de aparncia rude e
humildemente vestidos, que se juntou ao jovem. Um dos seguranas de seu av se precipitou
para proteger Marco, mas ele se colocou firmemente entre eles e disse:
       --  bom saber que o povo de Niroli se sente  vontade para falar abertamente comigo. A
questo de levar eletricidade para as partes mais remotas da ilha  um problema, eu sei, que est
nos planos de Sua Majestade h muito tempo. -- Marco colocou a mo sobre o ombro do rapaz,
puxando-o para mais perto de si, enquanto fazia um sinal com a cabea para o segurana. Ele viu
as lgrimas de agradecimentos nos olhos da velha camponesa.
       Marco foi escoltado at a limusine. Sentia uma raiva que lhe causava um peso no peito. A
famlia real de Niroh era a mais rica do mundo e ainda assim um de seus problemas era o povo
com alto ndice de pobreza. Ele podia imaginar como Emily ficaria chocada e chateada se tivesse
presenciado o que acabara de acontecer. O tempo que passou fora da ilha o havia modificado
mais do que imaginava, Marco reconheceu. De algum modo, ele achava que seu av no
aprovaria o que tinha em mente...

       Aconchegada em uma poltrona na sala de estar de sua casa, Emily deixou-se arrebatar pelo
sofrimento. Para que tentar fugir? A realidade era que Marco havia partido. No apenas de sua
vida, mas da Inglaterra, para retornar  sua casa, para o seu trono e para o seu povo. Em breve,
ele a substituiria por outra pessoa. A dor aumentava e ela chorava mais. No entanto, logo em
seguida se lembrou de que o homem que amava no existia. Ele era uma criao da sua
imaginao, urna fraude. Tudo o que dividiram se baseara em mentiras. Mesmo sabendo disso,
entorpecida pelo choque ao descobrir a verdade, ela fora deixada com a agonia de ainda am-lo.
       Por mais que se desprezasse por no ter sido capaz de romper e apesar de saber o quanto
ele a enganara, sua autocrtica no era capaz de eliminar o amor que ainda sentia.
       O que ele estaria fazendo agora? Ser que ainda pensava nela? Sentia saudades? Pare com
isso, pare, todos os seus instintos de autopreservao exigiam, agonizantes. No deveria fazer
isso consigo mesma! Ela deveria aceitar que ele se fora, tinha que encontrar uma maneira de
viver sem ele e o conforto em ser capaz de olhar para trs e saber que dividiram algo muito
especial. Tudo estava acabado. Seu orgulho exigia que ela aceitasse isso e tocasse a vida. Uma
coisa era certa: ele no estaria pensando nela. Provavelmente no teria pensado nela uma s vez
desde que ela sara de seu apartamento com a terrvel descoberta e amargando a briga corrosiva
que deu fim ao relacionamento deles.
       Que idiota ela havia sido ao pensar que ele poderia retribuir o amor que sentia por ele...


                                         CAPTULO SETE

      -- Marco, o chefe da segurana me contou sobre o seu desfile de boas-vindas. Voc foi
ameaado por um rebelde das montanhas? Provavelmente, um dos Viallis. Preste ateno, a
culpa  s sua. Se no tivesse sado do carro, isso no teria acontecido.
      -- No havia nenhum perigo real. Nada alm de um menino reclamando...
      -- A hostilidade dele para com o trono! -- o rei Giorgio interrompeu, irritado.
      O av de Marco envelhecera desde a ltima vez que haviam se visto, mas Marco admitia
que o velho patriarca ainda possua uma incrvel aura de poder.
      -- Acho que o menino estava mais frustrado e ressentido do que hostil.
       Marco observou o av. Havia ali uma questo maior do que as simples palavras de raiva
do menino, uma questo que Marco sentiu ser essencial. Mas ele sabia que era algo que o av
tambm no gostaria de discutir.
       Todavia, Marco investigou por conta prpria, e o que descobriu indicava possveis
problemas em Niroli que precisavam ser averiguados antes que evolussem para conflitos mais
srios.
       -- O menino estava se queixando da falta de eletri-cidade em seu vilarejp. Ele se ressente
de os visitantes do nosso pas terem mais benefcios do que nosso prprio povo.
       -- Eu no vou ouvir essas tolices. Os turistas trazem divisas para o pas e, naturalmente,
temos que seduzi-los oferecendo-lhes as facilidades a que esto acostumados.
       -- Enquanto algumas pessoas do nosso povo vivem sem elas? -- Marco o desafiou
friamente. -- Homens jovens s vezes agem imprudentemente. E, certamente,  nossa obrigao
equipar o nosso povo com o que eles precisam para entrar no sculo XXI.
       -- Voc ousa me ensinar a governar? -- o rei gritou. -- Voc? Que deu as costas para
Niroli para viver a prpria vida em Londres?
       -- Foi o senhor que exigiu meu retorno, v -- Marco recordou, abaixando a voz e usando
um termo carinhoso de infncia para se referir ao av, na esperana de suavizar a conversa.
       -- Porque eu no tive outra escolha -- Giorgio gritou. -- Voc  meu herdeiro direto,
Marco. Ainda assim, prefere se comportar como um plebeu, no como um membro da famlia
real de Niroli. Pelo menos teve o bom senso de deixar aquela... vagabunda com quem estava
vivendo para trs.
       Os olhos de Marco faiscaram de raiva. Era tpico de seu av vasculhar sua vida privada em
Londres o que tambm deixou Marco enfurecido foi o modo como Giorgio se referiu a Emily, e
como desprezava a relao deles. E, pior, era como se, de algum modo seu avo tivesse tocado em
uma ferida que Marco no queria admitir que existia, embora sempre se lembrasse. Porque,
mesmo que no quisesse confessar, sentia saudades de Emily. Marco expulsou o pensamento
Afinal, no seria natural que o seu corpo, privado dos prazeres sexuais, sofresse um pouco?
       -- Pelo que combinamos, inicialmente eu deveria voltar para Niroli sozinho -- Marco
ressaltou.
       A clera do rei aumentou.
       -- O que quer dizer com inicialmente?
       Como Marco no respondeu, o velho homem gritou:
       -- Voc no vai traz-la para c, Marco! Eu no permitirei. Voc  meu herdeiro e tem que
manter uma posio. As pessoas...
       Marco sabia que deveria garantir ao av que no pretendia trazer Emily para Niroli, mas,
em vez disso, disse calmamente:
       -- Tenho certeza de que nosso povo ter coisas mais importantes com que se preocupar
do que com o fato de eu ter uma amante, coisas como dez por cento deles no terem eletricidade.
       -- Est tentando se meter em assuntos que no so da sua alada -- o rei afirmou, irritado.
-- Cuidado Marco, se no as pessoas vo pensar que voc  mais um dissidente do que um
governante. Para governar, deve obter respeito, e para conseguir isso deve mostrar pulso forte.
       Esta era uma questo que seu av e ele jamais veriam com os mesmos olhos...

       -- Emily, por que voc no d o dia por terminado? Sei que voc detesta que eu toque
nisso, mas no me carece bem. Posso fechar o escritrio para voc.
       Emily tentou dar um sorriso indicando que tudo estava bem para sua assistente. Jemma
no estava errada mas Emily detestava saber o quanto sua aparncia estava ruim.
       --  muito gentil da sua parte se oferecer -- ela respondeu --, mas...
       -- Mas est morrendo de saudades de Marco e no quer voltar para uma casa vazia? --
Jemma sugeriu gentilmente.
       As lgrimas no canto dos olhos a denunciaram. Emily tentava firmemente fingir que no
estava sofrendo com o trmino da relao com Marco, mas, era bvio que sua assistente no se
deixou enganar.
       -- Eu tinha que terminar, por causa do status real de Marco -- ela disse para Jemma. No
incio, ela se preocupou em no revelar a verdade sobre a identidade real de Marco, mas no final,
no havia necessidade. Sua assistente leu uma das reportagens que saram nos jornais sobre o
retorno de Marco para Niroli.
       -- Eu s gostaria que ele tivesse me contado a verdade, Jemma -- Emily disse, em voz
baixa.
       -- Entendo -- Jemma concordou --, mas, de acordo com o que li, Marco veio para c
incgnito porque queria provar para si mesmo seus prprios poderes. Ele j tinha decidido isso
quando a conheceu, por isso suponho que no podia simplesmente lhe contar a verdade. Ele,
provavelmente, queria ser valorizado pelo que era, e no pelo ttulo ou posio.
       Emily conseguia ver lgica nos argumentos de Jemma e sabia que seriam os mesmos
usados por Marco se tivessem chegado a esse ponto da discusso.
       -- Marco no me contou porque no queria me contar -- ela retrucou. -- Para ele, eu era
apenas uma... uma companhia na cama com quem se divertia antes de me deixar para retornar 
sua vida em Niroli.
       -- Eu acho que posso entender como est se sentindo -- Jemma declarou --, mas li em um
dos artigos que foi somente depois da morte dos pais que Marco se tornou o herdeiro direto do
trono. Tenho certeza de que ele no lhe contou porque esperava continuar vivendo em Londres
com voc, anonimamente.
       -- Eu no significo nada para ele.
       --Eu no acredito nisso, Emily. Vocs sempre pareciam to felizes juntos, combinavam
tanto!
       --  intil falar sobre ele agora. Est acabado.
       -- Est? Eu no consigo deixar de acreditar que ainda exista muita coisa no terminada
entre vocs dois. Pelo que me contou, deixou o apartamento assim que descobriu a verdade.
Voc ainda devia estar chocada quando tudo aconteceu e eu suponho que Marco tambm
estivesse chocado, mesmo que por outros motivos.
       -- Motivos como ter sido descoberto, voc quer dizer. E ressentido por ter sido eu a
terminar a relao e no ele?
       -- Ento voc no gostaria que ele entrasse em contato com voc? -- Jemma sondou.
       -- Isso no acontecer. -- Emily sabia, pelo olhar de sua assistente, que Jemma percebera
sua fraqueza e o quanto estava sendo tola e falsa diante do desejo que ainda sentia por ele.
       -- Seja justa consigo mesma, Emily -- disse Jemma -- Marco e voc tm uma histria
juntos. Ainda h coisas abertas que precisam ser concludas, perguntas que voc precisa fazer e
respostas que Marco precisa dar.
       -- Eu estou bem, Jemma -- Emily mentiu.
       -- No, no est -- Jemma respondeu com firmeza. -- Olhe para si mesma. Voc no
come, est emagrecendo e no est feliz.
       --  apenas esse vrus, s isso. Parece que no consigo me livrar dele -- Emily justificou.
       Mais de duas horas depois, Emily ainda pensava na conversa que tivera com Jemma,
enquanto andava distraidamente pela loja. Jemma estava certa quando disse que ela no queria
voltar para uma casa vazia.
       Foi bom ter dito a si mesma que ele havia mentido para ela e que estava bem sem Marco.
A realidade era muito diferente: o espao vazio que Marco deixou em sua vida se transformara
em um estado de sofrimento sem fim. Ele se fora h pouco tempo, mas ela perdeu a conta das
vezes em que acordou  noite procurando por ele na cama somente para aumentar a angstia ao
deparar com a realidade de que ele no estava mais l. Por mais que trabalhasse, Emily no
conseguia esquecer que Marco partira, que no voltaria para casa com ele, que no mais seria
tocada por ele ou que no o beijaria outra vez. Estava terminado, ela teria de descobrir um modo
de reconstruir sua vida. Para piorar as coisas, estava perdendo peso e no conseguia se alimentar
direito. Emily responsabilizava a gripe que pegara no incio do ano.
       Marco ainda pensava nela, Emily se perguntava miseravelmente, ou estaria muito
ocupado planejando o futuro? Um futuro que, certamente, o obrigava a incluir uma esposa. O
sofrimento dela aumentou, derrubando todas as suas defesas e deixando-a exposta ao sofrimento
daquele amor. Marco... Marco... Como isso acontecera com ela? Como poderia ter evitado se
apaixonar por ele? O que ele estaria fazendo agora? Seu av? Sua famlia? No deveria fazer isso
consigo mesma, pensou. No tinha lgica, a no ser para reforar o que j sabia: amava um
homem que no a amava. Ela pegou o casaco. Precisava ir para casa.

       -- Que histria  essa de voc voltar para Londres? No permitirei que deixe Niroli para
voltar para Londres. Quais so os motivos?
       Marco teve que se controlar para no responder  altura a pergunta irritada de seu av.
       -- Voc sabe porque tenho que voltar. Tenho negcios para resolver l -- Marco
respondeu suavemente.
       -- Eu no permitirei.
       -- No? A escolha  sua, mas eu, mesmo assim, pretendo ir. No preciso da sua permisso.
       Eles se olharam obstinadamente, dois machos alfa que sabiam que, segundo as leis da
selva, apenas um deles poderia deter o poder do reino. Marco no pretendia deixar que seu av o
dominasse. Sabia que no momento que deixasse ele tomar vantagem, o rei no o respeitaria. A
verdade era que Marco poderia resolver os problemas de negcio que o levavam a Londres da
ilha, mas, em parte, sua deciso de viajar era para reforar sua prpria determinao. Fazia pouco
mais de duas semanas que ele chegara a Niroli e no houve um dia sequer que no tivessem se
confrontado. Toda tentativa de conversar com Giorgio sobre melhorias para ajudar os habitantes
mais pobres da ilha foi recebida com irritao.
       Marco estava decidido a levar eletricidade a todos os que vivessem nos vilarejos mais
remotos, mas seu av continuava inflexvel.
       -- Muito bem, ento pagarei por isso -- Marco informou irritado.
       Marco suspeitou que o rei Giorgio estava dificultando muito o relacionamento deles, mais
do que qualquer outra coisa. Marco admitia que todos os anos passados em Londres cuidando da
prpria vida, sem ter que consultar ningum sobre suas decises, agora complicavam sua
adequao ao papel de futuro rei. Marco saiu, andando devagar.
       -- Marco, sua ida a Londres tem qualquer coisa a ver com aquela mulher com quem estava
se deitando?
       Marco virou-se e olhou para o av, com a voz carregada de irritao, provocada pelo rei.
       -- E se tiver?
       -- Ento, eu o probo de v-la -- o av respondeu -- O futuro rei de Niroli no se deita
com uma qualquer, uma divorciada sem linhagem e sem dinheiro.
       -- Ningum me diz quem devo levar ou no para minha cama, vov, nem voc. -- Marco
no queria ouvir o que o velho homem tinha para dizer, por isso saiu da sala na tentativa de
refrear a fria que o invadia. Ele recusou a oferta de uma sute no palcio preferiu se instalar em
uma vila prxima, que herdara dos pais. Seu av no ficou muito satisfeito com a deciso, mas
Marco recusou-se a ceder. Para ele, era muito importante manter a privacidade e a indepen-
dncia. Contudo, agora no era para a vila que estava indo. Decidira tomar um avio para
Londres, apesar da atitude do av. Como Giorgio ousava tentar impedi-lo de dormir com Emily?
Ele olhou para o relgio. Era final de tarde em Londres. Provavelmente Emily estaria a caminho
de casa.
       Emily! Ele no precisava das insinuaes do av para pensar nela. Na verdade, estava
surpreso e desconcertado por perceber o quanto lembrava dela desde que partira. Marco
descobriu que no estava gostando de dormir sozinho, s isso, ele garantiu. O fato de Emily
estar to frequentemente em seus pensamentos era apenas um deslize de sua mente, no que isso
tivesse importncia para ele.
       Voltou a pensar no av. Apesar da frustrao com a arrogncia e as atitudes dominadoras,
estava consente de que o av no gozava de boa sade. Marco deveria continuar moderando suas
atitudes ao mximo. Mas no era fcil.
       -- Por que no vai ao mdico? -- Jemma sugeriu, ao observar a palidez de Emily.
       -- No h motivo para isso. E o que eu ja disse antes, apenas aquela virose.
       -- Voc se sentiu mal todas as manhs esta semana e colocou todo o almoo para fora.
Parece exausta.
       -- Preciso de frias, um pouco de sol para me levantar,  tudo -- Emily retrucou
suavemente. No queria alimentar essa conversa, mas tambm no queria magoar Jemma.
       -- Voc certamente precisa de alguma coisa -- Jemma concordou abertamente. -- Posso
buscar um sanduche e um caf para voc -- sugeriu.
       -- Cafe? -- Emily tremeu de repulsa. S de pensar no caf ficava enjoada. -- S o cheiro
me enjoa.
       -- Eu acho que voc realmente est precisando de frias -- Jemma afirmou.
       Emily deu um sorriso forado. No fundo, o que ela realmente precisava era de Marco, dos
braos dele para segur-la firmemente, do corpo dele prximo ao seu,  noite, na cama e, mais
que tudo, do amor de Marco e da certeza de que seria para o resto da vida. Mas ela no teria nada
daquilo. No percebera o quanto seria difcil viver depois que tudo havia acabara. A dor que
sentia agora era quase insuportvel. Ela se odiava por desej-lo daquela forma, mesmo depois ter
sido enganada. Contudo, odiar-se no diminua o amor que sentia...

       Os negcios que trouxeram Marco a Londres estavam concludos e a primeira consignao
de geradores que pagou com o prprio dinheiro j estava a caminho de Niroli. Ele estava
voltando para o hotel quando, por uma razo inexplicvel, dirigiu-se  loja de Emily.
       A compra dos geradores deixaria o av dele enfurecido, tanto quanto saber que ele tinha
visitado Emily, Marco admitiu, ao olhar a agradvel rua Chelsea banhada pelo sol da tarde.
Ento, por que estava l? Para irritar seu av? Marco curvou a boca cinicamente ao se dar conta
de sua atitude. Os dias de imaturidade em que precisava enfurecer o homem que representava a
autoridade indesejada j tinham passado. No, decididamente no queria aborrecer o av. Mas
ele no sabia se ficava ou ia embora. Ento, Marco raciocinou e viu que no havia nenhum mal
naquilo. Alm disso resolveria dois assuntos de uma s vez. Emily sara de sua vida sem lhe dar
a oportunidade de se explicar de forma racional. Ela lhe devia essa chance, e o seu orgulho exigia
que ela se retratasse dos insultos que lhe dirigira. Isso o levara  loja dela: seu orgulho. E
ningum, nem seu av nem a prpria Emily, o impediria de v-la e satisfazer seu orgulho. E seu
corpo, que ansiava por satisfao desesperadamente? Qualquer mulher poderia saci-lo! Marco
tentou se livrar da palpitao que aumentava  medida que se aproximava de Emily. No
permitiria, de forma alguma, que uma mulher dominasse seus sentidos daquele modo.
       Do lugar onde estava, ele podia ver o interior do espao de decorao de Emily. O
ambiente simples e elegante criado por ela era tranquilizador e confortvel. Sua vila em Niroli
certamente lucraria com seu talento! Marco ficou srio. Podia imaginar a reao de seu av se
voltasse para Niroli com Emily a tiracolo, alegando que precisava de uma decoradora. A
presena de Emily em Niroli no afetaria em nada seus objetivos.
       Quanto mais pensava no assunto, mais percebia os benefcios que teria com a presena
temporria de Emily na ilha, como que um ntido aviso ao av para que no invadisse sua
privacidade. Certamente, diante do improvvel fato de Emily voltar para Niroli com ele, Marco
desejaria dividir a cama com ela. Ele seria um idiota se no o fizesse, diante da vontade sexual
que o acometia. Era por isso que estava ali naquele momento? No s pelo seu orgulho, mas
porque ainda a desejava tambm? No!
       Ele j estava empurrando a porta da loja quando parou, pronto para dar meia-volta e
reconhecer o quanto essa motivao era infundada. Porm, era tarde demais para mudar de ideia,
Emily j o tinha visto.
       Ela estava sentada  sua mesa, conversando com Jemma. A primeira coisa que ele notou
foi como estava mais magra e como parecia frgil e plida. Por causa dele? Marco ficou surpreso
ao reconhecer que parte dele gostaria de acreditar que era por causa da saudade que sentia dele.
Por qu? Por que deveria se sentir assim quando, no passado, com outras mulheres, sentia-se
aliviado ao v-las saindo com outros parceiros depois de terminar com elas?
       Ele afastou os pensamentos ao observar Emily arregalando os olhos ao v-lo, corando de
perplexidade Ele leu os lbios de Emily pronunciarem seu nome Ela empurrou a cadeira para
trs para se levantar, mas Marco percebeu que ela sentiu-se tonta e inclinou-se para cair. A cor
de sua face desapareceu como se ela estivesse sem sangue.
       Marco reagiu instintivamente e correu por entre os mveis, chegando a tempo de segur-
la e ouvi-la dizer:
       -- Est tudo bem, eu no vou desmaiar --, para desmaiar em seguida.
       No meio do mal-estar, Emily ainda podia ouvir as vozes de Jemma e de Marco. As
palavras oscilavam no meio da escurido da qual Emily esforava-se para sair. Foi ento que
sentiu os braos de Marco segurando-a firme. Emily respirou aliviada, no precisava mais lutar
sozinha. Mais calma, deixou-se levar pela escurido que a envolvia.

       -- Que diabos est acontecendo? -- Marco perguntou a Jemma. Qualquer pensamento
idiota sobre achar que o mal-estar de Emily fosse por causa dele desapareceu ao perceber o
quanto ela estava frgil.
       -- Eu gostaria de saber -- Jemma admitiu. -- O que sei  que ela no tem se alimentado
bem. Diz que  por causa do vrus que pegou no incio do ano. Emily no  a nica, eu li nos
jornais que muitas pessoas ainda esto sofrendo com os sintomas. Os mdicos dizem que o
melhor remdio  repouso e sol para fortalecer o sistema imunolgico. Fico feliz que esteja aqui.
Estava preocupada com ela.
       -- Vocs querem parar de falar de mim como se eu no existisse? Estou bem... -- A
tonteira estava passando e, junto com ela, a nusea. Emily estava sentada em uma cadeira.
Levantou a cabea vagarosamente e viu que ele estava ao seu lado. To prximo que poderia
facilmente alcan-lo e toc-lo. Lgrimas de tristeza brotaram em seus olhos.
       -- Emily? -- ela sentia as mos de Marco em seus ombros e seu corpo respondia
estranhamente de forma tranquila e excitada quele calor familiar. A voz spera de Marco
dilacerava tanto seu orgulho quanto seu corao. No era bem assim que gostaria que fosse o
primeiro encontro deles depois da separao. Estava to frgil e carente, praticamente forando
Marco a assumir a situao. O destino no estava sendo muito gentil com ela no momento. Ela
teria pago qualquer preo para no deix-lo v-la nessas condies, para que ele no presenciasse
esse humilhante desmaio.
       -- No h motivo para confuso, estou bem -- ela repetiu, tentando demonstrar firmeza.
       -- No d ouvidos, Marco. Ela no est bem. Praticamente no come e quando o faz,
enjoa.
       -- Jemma! -- Emily advertiu-a firmemente.
       -- Jemma no me contou nada que eu no tenha percebido. E, alm disso, no h razo
para eu no saber, ou h? -- Marco perguntou.
       Nenhuma, a no ser seu orgulho e seu corao partido, Emily admitiu. E,  claro, essas
razes no interessariam a Marco.
       -- Eu no sei o que est fazendo aqui, Alteza -- ela enfatizou o ttulo de Marco.
       Marco decidiu que no podia simplesmente ir embora e deix-la naquele estado. Ento, o
que deveria fazer? Seu vo j estava marcado para aquela noite Emily no era sua
responsabilidade. Era uma adulta No havia motivo para ele se envolver. Mas uma voz interna
lhe dizia que era muito tarde para essas conjecturas.
       -- Eu vim v-la porque tenho uma proposta de trabalho -- ele disse suavemente. Marco
percebeu que ela reagia confusa e incrdula.
       Emily levou a mo  cabea como se no pudesse entender o que ele falava. O olhar
distante e fraco deixou Marco sensibilizado e ele tentou se livrar da sensao to logo a percebeu.
       A cabea de Emily doa. Estava difcil entender a presena de Marco ali, sem contar com
todo o resto. Seus pensamentos estavam desordenados. Ela, realmente, no entendia o que ele
falava. Era difcil controlar a taquicardia e a tremedeira e, ao mesmo tempo, pensar com calma.
Emily se aborrecia s de pensar que a presena dele a teria afetado a ponto de provocar o
desmaio. Seus sentidos se apegavam  lembrana de Marco, segurando-a forte. Uma parte dela
desejava manter a maior distncia possvel para no demonstrar o auanto estava abalada,
enquanto a outra desejava ficar o mais perto possvel: corpo com corpo, pele com pele, boca com
boca -- corao com corao.
       -- Uma proposta de trabalho? O que isso quer dizer Marco? Sou uma designer de
interiores.
       -- Exatamente -- Marco concordou. -- tima profissional.
       Marco a estaria elogiando? Bajulando? Por qu? Ela estava suspeitando daquilo.
       -- Antes de assumir formalmente o lugar de meu av, em vez de mudar para o palcio e
ocupar uma das sutes -- Marco explicava --, eu me mudei para uma vila. Fica localizada na
parte antiga da ilha e precisa muito de uma reforma. Eu quero uma designer que saiba o que est
fazendo e, principalmente, que conhea o meu gosto.
       Emily demorou alguns segundos para entender completamente as palavras dele, mas,
quando conseguiu, mal acreditou.
       -- Voc quer dizer que pretende me pagar para ser essa designer? -- ela perguntou, ainda
fraca.
       -- Sim, por que no? -- Marco confirmou.
       -- Por que no? -- Emily o encarou enquanto o corao disparava no peito. -- Marco,
ramos amantes. Voc deve entender que no posso deix-lo me contratar para ser sua designer
como se nada tivesse acontecido.
       -- Claro que no, Emily. Voc nunca me deixou explicar por que no lhe contei sobre
Niroli.
       Emily esperou, sentindo-se fraca e indefesa. Era sua pior inimiga agora, tinha conscincia
disso. Ela nem sequer deveria estar ouvindo Marco, mas ansiava pelos segundos ao lado dele.
       -- Desde criana, tenho uma relao muito difcil com meu av. Na viso dele, eu era um
tipo de ovelha negra. Eu fiquei ressentido pela forma como ele tratava meu pai e jurei que nunca
o deixaria me controlar como havia feito com meus pais. Vim para Londres determinado a
provar para ele e para mim mesmo que poderia ser bem-sucedido sem o poder da famlia real de
Niroli. Foi por esse motivo que vim para c e permaneci incgnito.
       -- Mas quando nos conhecemos voc j era um homem de sucesso -- Emily recordou.
       -- Sim, mas eu j estava acostumado  liberdade que Marco Fierezza me dava. Era como
se no precisasse viver de outra forma, pelo menos por uns bons anos. Meu pai ainda estava vivo
e sucederia a meu av no momento adequado -- Marco encolheu os ombros. -- No havia a
menor expectativa de me tornar rei at estar bem mais velho.
       -- Talvez no. Mas voc, certamente, teria que se casar apropriadamente e ter filhos para
poder passara coroa -- Emily no resistiu e assinalou calmamente.
       -- Sim, em algum momento. Uma das regras arcaicas da famlia real  que um rei no
pode se casar com uma mulher divorciada ou de reputao duvidosa. O desafio de encontrar tal
paradigma no mundo de hoje  to grande que eu ficaria mais do que feliz em permanecer
solteiro at ser obrigado a casar.
       Emily teve que piscar os olhos para impedir que as lgrimas escorressem. Marco no fazia
idia do quanto suas palavras casuais eram ofensivas. No lhe ocorria pensar que ela gostaria de
ser amada e ter um compromisso permanente com ele. Ela deveria odi-lo com essa
demonstrao de indiferena, mas estava muito ferida emocionalmente.
       -- Eu no tenho muito tempo e, como voc precisa comer, por que no discutimos isso
durante um jantar?
       Emily estremeceu e recusou com a cabea. Sua rea-o preocupou Marco. Ela sempre tinha
bom apetite e nunca precisou se preocupar com o que comia.
       -- Jemma tem razo, Emily, voc no est se cuidando bem -- Marco declarou. -- Precisa
dar uma parada. No tenho tempo para discutir. Estou decidido. Voc vem comigo para Niroli.
       Seria a tontura voltando, ela estava to fraca que ficara satisfeita por Marco ter decidido
por ela? Era uma mulher independente, pelo amor de Deus. Tentou recuperar algum controle
sobre o que estava acontecendo.
       -- No posso fazer isso, Marco. Tem o trabalho...
       -- Claro que pode, Emily. Eu posso cuidar das coisas por aqui -- Jemma interveio, antes
de sair para o correio.
       Agora, Marco e Emily estavam sozinhos na loja e ela desejou profundamente no estar
sendo to controlada por ele.
       -- No pode me levar com voc, Marco. Isso no daria certo, ns ramos amantes...
       --E poderemos continuar sendo, se  o que deseja -- Marco interrompeu delicadamente.
       Emily no ousou encar-lo para no demonstrar a saudade e a esperana estampadas em
seus olhos. Ela se dividia entre a impotncia quanto a ainda desej-lo e a praticidade da situao,
e protestou:
       -- Marco, no podemos. Mesmo que eu quisesse... ir com voc  impossvel.
       -- Por que no, se  o que ns dois desejamos?
       O que ns desejamos. O corao dela saltou diante do prazer de ouvi-lo admitir aquilo.
       -- Certamente, seu av no aprovaria isso, ou...
       -- Meu av no governa minha vida pessoal -- Marco respondeu, com a arrogncia
costumeira.
       Ela no sabia como lidar com a situao.
       -- Eu no sei o que dizer -- Emily admitiu. -- Quanto tempo tenho?
       -- Para vir para a cama comigo? -- Marco a interrompeu carinhosamente. -- Duvido que
meu av esteja realmente pronto para afastar-se, por tudo o que ele diz ser. Ns poderamos
passar o vero juntos e ento reavaliar a situao.
       Emily sentia seu rosto corar.
       -- No foi essa minha pergunta. Eu queria saber quanto tempo voc me d para pensar no
assunto e decidir sobre a proposta de trabalho -- ela esclareceu.
       -- Nenhum, porque voc no vai pensar a respeito. Vai voltar comigo, Emily. No tem
escolha. O que voc pode decidir, claro,  sobre suas habilidades. Meu vo sai s 8h, ento s
temos tempo de passar na sua casa para pegar suas coisas. E tempo para eu lhe mostrar o que ns
perderemos se voc no vier -- ele comentou, olhando para ela de uma forma to sensual que o
corpo de Emily ardeu de saudades.
       Ele entregou a Emily o casaco e a bolsa e, de certa forma, ela estava sendo conduzida,
indefesa e incapaz de interromper o que estava acontecendo -- sem se importar com isso.
       -- Quantos quartos tem a vila? -- ela perguntou a Marco.
       O olhar dele era provocativo.
     -- Cinco, mas voc dormir no meu, comigo.
     -- Voc est prestes a se tornar rei de Niroli, Marco! -- Emily se sentiu obrigada a
lembrar. -- No podemos viver abertamente como amantes.
     -- No? -- Ele desafiou.


                                           CAPTULO OITO

      Em algum momento durante o trajeto do aeroporto de Niroli para a vila Emily deve ter
adormecido. Ela percebeu quando o carro parou e ouviu Marco dizendo:
      -- Chegamos.
      A reviravolta emocional das ltimas horas a abatera. Emily estava to exausta que mal
conseguia sair do carro, mesmo com a ajuda de Marco. Por um momento, ela hesitou e olhou
para dentro do carro. Deveria mesmo ter vindo? Colocou os pensamentos de lado e concentrou-
se na atmosfera quente e familiar do Mediterrneo. Recordaes de feriados passados com
Marco em outros lugares da regio.
      Emily respirou lentamente, tentando controlar as emoes. Percebeu que estava em um
ptio visualmente confuso, com paredes de pedras brancas, janelas abobadadas cobertas por
persianas e com delicados balces de ferro.
      --  quase mouro -- ela comentou.
      -- Sim, realmente -- Marco concordou. -- A histria relata que os mouros estiveram aqui
em determinada poca.
      -- Voc disse que estava morando aqui e no no palcio?
      -- Sim, est desapontada? Se for o caso, posso providenciar uma sute para ns l...
      -- Para ns? No... -- Emily o interrompeu abruptamente. -- Marco... -- ela parou e
estremeceu ligeiramente. Tinha sido estpida ao permitir que Marco a trouxesse para t-la de
volta em sua cama, quando sabia que no haveria um verdadeiro futuro entre eles. Mas por que
pensar no futuro quando se podia ter o o presente?, uma voz interior gritou. Cada dia, cada hora que
pudesse ter ao lado de Marco era to preciosa que ela deveria agarrar a oportunidade com unhas
e dentes. Emily fechou bem os olhos e os abriu em seguida. No estava acostumada a essa
estranha imprudncia que desenvolvera em admitir qualquer coisa que no fosse sua
determinao em estar com ele. Ela o amava muito, Emily admitiu, mas seria muito melhor se
no amasse.
      Bem, a voz imprudente lhe disse. Ento gaste o seu tempo tentando parar de am-lo e eu gastarei
o meu usufruindo da companhia dele. Voc no pode ir, no agora. O que era isso? Ela sentia-se
dividida em duas. A parte sensvel, protetora, dizia que seria melhor ficar por ali aprendendo a
reconhecer as grandes diferenas entre eles; melhor ainda, que ela no se concentrasse no fato de
Marco ser seu amante e o homem que amava, mas no fato de que era o futuro rei de Niroli e,
como tal, nunca poderia ser dela. Contudo, essa nova parte impulsiva estava insistindo que nada
era mais importante que aproveitar ao mximo cada minuto de intimidade e doura que pudesse
ter com ele, independentemente do que o futuro lhe reservava. Como poderia viver com duas
foras to opostas? No poderia.
      -- Vamos entrar -- ela ouviu Marco cham-la -- para eu apresent-la a Maria e Pierr.
Eles cuidam da vila para mim.
      -- Eles sero obrigados a falar da minha estada aqui.
      -- Creio que sim, mas por que isso deveria importar? -- Marco sabia muito bem que tudo
o que falassem ali chegaria rapidamente ao conhecimento do seu av.                              --
No seria melhor se talvez eu... Talvez eu devesse ter o meu prprio quarto, por causa das
convenes, e ento voc poderia...
        -- Eu poderia o qu? Ir furtivamente para a sua cama no meio da noite? -- Marco sacudiu
a cabea.
        -- Mas se ns vamos ser amantes...
        -- Se? -- ele zombou. -- No tem "se" com relao a isso, Emily. Voc dormir na minha
cama e eu estarei com voc, no confunda as coisas. Meu povo entender que sou um homem,
assim como seu futuro rei, e eles no esperam que eu leve uma vida de monge. Eles iro aceitar
isso...
        -- Isso o qu? Que eu sou sua amante e que voc me trouxe para c para esquentar sua
cama?
        Quando Marco falava desse jeito, era como se ela estivesse diante de um estranho, Emily
reconheceu, apavorada. A referncia casual que fazia ao "seu povo" e  sua posio como "futuro
rei" o colocava em um plano diferente do dela, em caminhos de vida diversos.
        -- Est querendo dizer que no quer esquent-la? -- Marco perguntou, interrompendo os
pensamentos dela de forma to sedutora... quase como o velho Marco que ela conhecia.
        -- Sabia que h algo no cheiro da sua pele que enche minha cabea com os pensamentos e
lembranas mais erticas, como agora? -- Sua voz tornou-se um suspiro quase fascinante. --
Voc se lembra da primeira vez que eu a provei?
        Apesar dos medos e dvidas que sentia, as palavras dele fizeram-na tremer de desejo. Ela
queria lhe dizer no era mais uma virgem ingnua e que no faria o jogo dele, mas, em vez disso,
ouviu-se dizendo diretamente:
        -- Sim.
        -- E a primeira vez que voc me provou?
        Agora, ela s conseguia assentir,  medida que era invadida pelo desejo.
        Marco segurou-a pelo pulso enquanto lhe fazia caricias sedutoras na pele.
        -- Voc no se importava que o pessoal do hotel soubesse que ramos amantes.
        -- Era diferente -- ela protestou.
        -- Por qu?
        -- ramos amantes privativamente. Mas aqui, Marco, aos olhos do povo de Niroli voc 
o futuro rei e eu serei sua amante.
        -- E da?
        Ser que ele realmente no compreendia como ela se sentia? Estaria to afastado da vida
comum para no perceber que ela preferiria mil vezes ser a amante de Marco Fierezza a ser a
amante do futuro rei de Niroli?
        -- Posso lhe garantir que ser tratada com cortesia e respeito, Emily -- ele continuou. -- E
se eu ficar sabendo do contrrio, tomarei providncias corretivas.
        Ele parecia horrivelmente distante. Suas palavras eram o tipo de declarao que a teria
feito rir, e esperava que a ele tambm. Mas, pela expresso de Marco, Emily percebeu que falava
srio. Marco sempre teve uma postura controladora, mas agora Emily notava uma certa
arrogncia, uma frieza e uma distncia que a deixavam gelada. A obstinao em sua voz e a
agressividade de sua postura denunciavam sua determinao em traar o prprio caminho. E
uma crena nos seus direitos reais tambm? Emily no estava certa, mas realmente sentia que
essa ligeira mudana realava suas incertezas. Em Londres, apesar do abismo financeiro entre
eles, podiam viver como iguais. Aqui em Niroli ela instintivamente percebia que as coisas
seriam diferentes. Mas agora estava muito cansada para avaliar o quanto essas diferenas
interfeririam na relao deles. Nesse momento, tudo o que queria... Marco ainda acariciava seu
brao. Emily fechou os olhos e encostou-se nele. Admitiu que tudo de que precisava agora estava
ali: o perfume da noite, a proximidade de seus corpos e a promessa de prazer...
       Fora um nico, agudo e penetrante grito de um animal que tirara Emily de seu profundo
sono. A princpio, as coisas diferentes  sua volta deixaram-na confusa, mas logo em seguida
lembrou-se de onde se encontrava. Ela se virou na espaosa cama.
       -- Marco?
       Emily chegou to cansada que fora direto para a cama do quarto indicado por Marco. Ela
deve ter adormecido assim que encostou a cabea no travesseiro.
       Aporta do banheiro da sute estava aberta. Um misto de alvio e tenso sexual tomou
conta dela quando viu Marco caminhando em sua direo. Ele sempre dormia nu e havia luz
suficiente vinda da janela para revelar os contornos de seu corpo. O resto ela buscou na
memria, preenchendo o que estava oculto pela sombra com tamanha riqueza de detalhes que
chegou a estremecer.
       -- Ento, voc est acordada?
       -- Sim -- sua resposta foi quase um suspiro. Emily estava impaciente consigo mesma por
no conseguir tirar os olhos daquele fsico maravilhoso.
       -- Mas ainda est cansada? -- Marco estava de p ao lado da cama, olhando para ela.
       -- Um pouco, mas nem tanto -- ela sussurrou carinhosamente. Ela sempre soube, claro,
que este seria o resultado de estar outra vez com ele. Quando se tem um homem sexualmente
irresistvel como Marco e uma mulher desesperadamente apaixonada, no poderia ser diferente.
       Repentinamente, uma urgncia sexual pegou Marco desprevenido e abalou seu
autocontrole. Ele sabia que sentia falta de ter relaes sexuais com ela, mas no estava preparado
para a intensidade do desejo.
       Apele de Emily exalava o cheiro do seu gel de banho, provocando os sentidos de Marco e
trazendo  lembrana a intimidade que compartilhavam na penumbra da noite. S agora ele
percebia o quanto sentia falta... Ela se mexeu e afastou a coberta, fazendo a musculatura peitoral
de Marco mover-se em funo dos batimentos cardacos. A pulsao acelerou-se e Marco
percebeu que o desejo por ela, que comeara nesta cama quando passou a primeira noite sozinho
comeava a ficar fora de controle.
       -- Emily.
       O modo como ele pronunciou seu nome a derreteu. Era impossvel resistir. Emily sentou-
se na cama entregando seu amor. Ela pressionou os lbios contra os ombros nus de Marco e
fechou os olhos para deleitar-se com seu cheiro. Passou a ponta da lngua pela clavcula dele,
sentindo a contrao muscular e o gemido de prazer como resposta. Quando ele curvou o
pescoo para trs, ela percorreu todo o trajeto com beijos at chegar ao pomo-de-ado, e os
msculos de Marco continuavam se contraindo de desejo com a provocao. O desejo dele a
contagiou, intoxicando-a e encorajando-a a fazer da intimidade deles uma dana ertica de tirar
o flego.
       Era bom manter o desejo no fio da navalha, no permitir que ele a tocasse at que no
suportasse mais para s ento oferecer seu corpo ao toque e aos beijos dele. Emily gemeu de
prazer quando ele deitou-se sobre ela e penetrou-a. Mas foi o gemido de triunfo e liberao dado
por Marco que os levou ao pice.
       Alguns minutos depois, saindo de cima de Emily, Marco deitou-se de costas, observando o
teto e esperando que seus batimentos voltassem ao ritmo normal. Marco no queria admitir o
que seu corpo acabara de revelar, sobre a intensidade de sua necessidade de Emily.
       Se o modo como Marco a rejeitava depois da intimidade compartilhada por eles a
magoava, ento, que isso lhe servisse de lio por ter vindo, Emily pensou. Ela deveria aceitar o
sofrimento e us-lo para lembrar o que a realidade de estar aqui com Marco significava. Seria
bom para ela poder v-lo no seu verdadeiro papel, no seu habitat natural... Isso serviria para
comprovar que o homem que amava simplesmente no existia mais e, no momento em que
admitisse isso, seu indesejvel amor morreria. Como poderia sobreviver?
                                         CAPTULO NOVE

      O rei Giorgio sacudia o dedo em reprovao.
      -- Como se no fosse suficiente voc tentar deliberadamente minar a autoridade da coroa
com esses geradores que trouxe para Niroli, ainda despreza minhas ordens para pr um fim
nessa associao com essa... vagabunda? Voc sabe perfeitamente que h protocolos a serem
seguidos quando um membro da famlia real assume uma amante.
      -- Voc quer dizer que eu deveria escolher uma mulher dentre as casadas com os nobres
da ilha? O marido dela, claro, seria instrudo a cumprir com suas obrigaes e desistir da mulher
em favor dos prazeres reais, enquanto ambos seriam devidamente recompensados. -- Marco
sacudiu a cabea.
      -- Voc no espera que eu acredite que voc, um prncipe de Niroli, possa se contentar
com uma mulher que no  nada...
      -- Emily est longe de no ser nada. A verdade  que voc a insulta ao compar-la com
uma sangue azul imaginria que considera to superior a ela. No h comparao. Emily 
superior a elas em todos os sentidos. -- A imediata reao acalorada e enfurecida em defesa de
Emily e a raiva direcionada ao av tomaram conta de Marco antes mesmo que ele pudesse
pensar no que estava falando. Seu primeiro impulso foi proteg-la, e isso j era suficiente para
faz-lo pensar nesse comportamento to pouco caracterstico.
      Seu av no lhe deu tempo para ponderar. Em vez disso, o rei empurrou a cadeira para trs
e levantou-se, antes de exigir, com seus poderes reais:
      -- Voc realmente pensa que me deixo enganar por algumas dessas coisas, Marco? Pensa
que no percebo que trouxe esses geradores e essa mulher aqui para Niroli para me insultar?
Voc pode pensar que consegue conquistar o corao do meu povo oferecendo-lhe acesso a esses
brinquedos tecnolgicos que acredita ser o que eles anseiam, e que por isso vo aceitar sua aman-
te, mas est enganado.  verdade que h elementos de rebelio e insatisfao entre os habitantes
da montanha. Os Viallis lhe sero fiis e vendero sua lealdade por um punhado de prata, mas
eles no so nada. O corao do restante da populao de Niroli est comigo.
      -- No meu av,  voc quem est errado -- Marco respondeu enfaticamente. -- Pode
querer se apegar aos mtodos antigos, reforando a ignorncia e a pobreza do povo, no
permitindo que faam suas prprias escolhas sobre a forma como gostariam de viver. Eu trouxe
os geradores porque seu povo, nosso povo, precisa deles, e trouxe Emily porque eu preciso dela.
-- No era o que ele planejava dizer nem o que estava pensando quando partiu para esse
confronto, fnas, assim que as palavras foram pronunciadas, Marco percebeu que continham uma
verdade que tentava esconder de si mesmo. Ou isso a negava e ignorava deliberadamente? Ele
sabia que precisava de Emily, que a desejava e que podia fazer uso da presena dela em Niroli
para reforar sua independncia perante seu av, mas precisar dela... era algo que outra vez fazia
Marco enrijecer, pronto para se defender da vulnerabilidade que no queria reconhecer.
      -- A mulher  uma plebia, e plebeus no entendem o que  ser membro da realeza. Elas
causam problemas que uma mulher nobre jamais causaria.
      -- Enquanto Emily estiver aqui em Niroli, ser recebida na Corte e ser tratada com
cortesia e respeito, como a mais nobre das amantes reais -- ele disse.
      Antes disso, ele no tinha a menor inteno de trazer Emily para a Corte, mas no
pretendia contar isso ao av. Como o velho homem poderia ousar sugerir que Emily fosse, de
alguma forma, inferior a qualquer esposa de nobre em Niroli? Ele sempre apoiaria Emily se
fosse preciso valoriz-la como pessoa. Era inteligente, solidria, esperta e gentil, e sua doura
natural era uma ddiva divina, comparada  falsidade dos cortesos e de suas esposas. Ele viu a
expresso de satisfao que alguns bajuladores trocaram entre si quando seu av enfureceu-se
por causa dos geradores.  claro que no era de se esperar que eles gostassem do fato de que
haveria mudanas, mas teriam que aceit-las, Marco decidiu. Assim como teriam de aceitar
Emily. Ele estava saindo da sala de reunies quando reconheceu o quanto se sentia fortificado ao
defender Emily, mais do que realmente poderia supor...
                                                ***

       Emily olhou para o relgio sem acreditar. Era quase hora do almoo! Como poderia ter
dormido tanto? O prazer usufrudo na noite anterior poderia justificar a hora.
       Marco! Ela se ajeitou na cama e viu o bilhete na mesa de cabeceira.
       Ele havia ido para o palcio para ver o av e, como no sabia a que horas retornaria, deu
ordens a Maria para providenciar tudo o que ela precisasse.
       -- Se voc se sentir capaz, fique  vontade para dar uma olhada em volta -- tambm
escreveu. -- Mas no se canse.
       No havia nenhuma meno  noite anterior, mas dificilmente haveria. O que ela estava
esperando? Uma carta de amor? Mas Marco no a amava, amava? Emily admitia que no se
sentia pronta para encarar a dureza dessa realidade agora.
       Mas teria que pensar nisso em algum momento. Afinal, nada tinha mudado, a no ser o
fato de agora saber como era viver sem ele. No deveria se esquecer que tudo isso no passava de
um agradvel intervalo, uma chance para armazenar lembranas extras para o futuro. No lhe
faria nenhum bem mergulhar nesses pensamentos depressivos, de modo que era melhor le-
vantar-se e manter-se ocupada conhecendo a vila.
       Depois do caf, Emily estava pronta para vistoriar a vila, tentando conversar com Maria
com uma mistura de gestos e algumas palavras em italiano.
       Emily no fazia idia de quando a vila havia sido construda, mas estava claro que era
muito antiga e que fora construda em uma poca que as necessidades familiares eram bem
diferentes das atuais.
       No andar superior havia mais quartos. Emily comeou a se sentir cansada quando
terminou a inspeo no primeiro andar e no trreo. Esse cansao no inibiria sua animao com
a possibilidade desafiadora de um projeto to compensador.
       Emily gostou mais do segundo ptio, para onde o quarto de Marco era voltado. Parada
nele, agora, no resistiu em pensar como a vila poderia ser uma maravilhosa casa de veraneio
para uma famlia. O espao era suficiente para acomodar trs geraes. Sem muito esforo, ela
podia v-los aproveitando o luxuoso conforto da vila reformada. As crianas exuberantes, o som
das gargalhadas se misturando ao som da fonte, o beb sorrindo e balbuciando no colo de Marco
todos observados pela esposa de Marco, rainha de Niroli.
       No faa isso consigo mesma, uma voz interior advertiu Emily. No pense nisso, ou nela, no
imagine como seria estar no lugar dessa mulher. Na realidade, a casa que ela estava idealizando no
era a do rei e da rainha, era a casa de um casal que se amava, a casa para um tipo de famlia que
ela imaginara na adolescncia. O tipo de casa que representava a vida e o futuro que ela desejava
desesperadamente dividir com Marco. Se isso era uma fantasia, ento ela deveria transformar
tudo aquilo que havia entre eles e imaginar um final feliz. Mas a vida real era diferente, e nada
disso aconteceria.
       Um dia, talvez, haveria um homem com quem ela pudesse encontrar alguma paz, um
homem que lhe daria filhos que pudessem amar juntos. Esse homem no poderia ser Marco.
       E, pior, a vida deles seria sobrecarregada pelo peso da herana real, assim como Marco era,
e isso Emily no poderia infligir aos prprios filhos. Para eles, ela desejava amor, segurana e
liberdade para crescerem de acordo com suas individualidades.
       Enquanto Emily lutava contra a prpria tristeza, remoa a ideia de que Marco tambm no
tinha intenes em transform-la em sua esposa por dois motivos: primeiro, pelo que seus
recentes pensamentos lhe revelaram, que eram os seus verdadeiros sentimentos com relao ao
sangue azul de Marco e, depois, claro, pela impossibilidade do casamento dele com uma mulher
divorciada.
       O barulho da loua agitando-se sobre a bandeja apagou os pensamentos de Emily quando
Maria entrou no ptio trazendo caf.
       Em meia hora Emily j estava entretida com as anotaes que fazia.
       Uma hora depois, Marco estacionava o carro e Emily ainda trabalhava duro. Depois que
deixou o palcio, ele teve de ir ao aeroporto acompanhar o descarregamento dos geradores.
       Marco decidiu dirigir at as montanhas para certificar-se de que os geradores fossem
entregues em segurana. Se seu av pensava que poderia desautoriz-lo, teria que aprender a
dura lio de que isso no aconteceria.
       Marco comprimiu os lbios. Como um empreendedor de sucesso, no estava acostumado a
ter suas decises questionadas. Ser que seu av realmente tinha ideia do potencial prejuzo que
estava infligindo  ilha com sua teimosa recusa em reconhecer que o mundo tinha mudado e,
com ele, as pessoas? Fora qualquer outra coisa, havia a ameaa de uma agitao civil entre os
habitantes da montanha, que poderia crescer e futuramente ser orquestrada pela gangue dos
Viallis, que vivia entre eles.
       Emily estava profundamente entretida com suas anotaes, mas seu sexto sentido a
informou da presena de Marco. Ela largou a caneta e olhou para a entrada do ptio. Apesar dos
pensamentos sombrios de mais cedo, no momento em que avistou Marco de p, olhando para
ela, todos os sentimentos que prometera tentar controlar a invadiram. Emily empurrou a cadeira
para trs e se dirigiu para ele.
       Marco percebeu que toda a raiva que sentira pela manh se esvaa com as calorosas boas-
vindas de Emily. Ele quis abra-la e lev-la para a cama para esquecer dos problemas e se perder
nela. A necessidade que tinha dela era to intensa... Marco ficou tenso outra vez. De novo, a
palavra necessidade, aquele sentimento que no gostaria de ter.
       -- O que houve? Algo errado? -- Emily perguntou, ao notar a tenso dele,
       -- Nada com que voc precise se preocupar. Um problema administrativo que tive de
resolver -- ele respondeu. -- Eu ficarei fora a maior parte da tarde.
       Emily fez o que pde para tentar esconder o desapontamento, mas sabia que no tinha
conseguido.
       -- Emily -- ele comeou carinhosamente.
       -- Est tudo bem, eu sei. Voc  o futuro rei e tem coisas mais importantes para fazer do
que ficar comigo. -- ela interrompeu.
       Marco olhou para ela, Emily estava de cabea baixa.
       -- Voc pode vir comigo, se quiser, mas ser demorado teremos que trafegar por estradas
quentes e empoeiradas e haver longas esperas enquanto falo com as pessoas. E como voc no
vem se sentindo bem...
       -- Estou bem melhor agora. Dei uma olhada na vila e poderia lhe passar algumas opes
no carro.
       -- Voc precisar de um chapu para se proteger do sol e de um sapato confortvel, caso
precise caminhar. Alguns dos vilarejos que vamos visitar so bem remotos Eu no pretendo
demorar.
       Marco notou que os olhos de Emily brilhavam como se ele tivesse lhe oferecido presentes
inestimveis. Ele teve o impulso de peg-la e abra-la forte, de beij-la carinhosamente. Marco
se livrou do impulso sem saber de onde ou por que isso tinha acontecido, mas certo de que era
perigoso...

                                          CAPTULO DEZ
       -- Estou autorizada a fazer alguma pergunta? -- Emily indagou discretamente. Fazia
quase uma hora que eles tinham sado da vila. -- Ou esta viagem  um segredo de estado?
       -- Nenhum segredo, mas certamente  um problema controverso, que preocupa meu av
-- Marco esclareceu.
       -- Se forem negcios familiares pessoais -- ela comeou, mas Marco a interrompeu.
       -- No,  muito mais um problema pblico, j que envolve algumas das comunidades
mais pobres da ilha. Em vez de reconhecer as necessidades deles e fazer alguma coisa nesse
sentido, meu av prefere ignor-los, e foi por isso que resolvi assumir o problema. As partes
mais remotas da ilha no tm energia -- ele explicou. -- Por causa disso, a essas pessoas so
negadas comunicao e conforto, seus filhos no tm acesso  tecnologia e educao. Meu av
acredita que sabe o que  melhor para eles e para Niroli. Como existe um histrico de revolta
entre a nossa populao montanhesa, ele tambm teme que os estimulando a fazer parte do
mundo atual, os estaria encorajando a desafiar a supremacia da coroa.
       -- E voc no concorda -- Emily concluiu.
       -- Eu acredito que toda criana tem direito a uma boa educao e que todos os pais tm o
direito de querer propiciar aos seus filhos as melhores oportunidades. Meu av acha que ao
educarmos nossos cidados mais pobres ns os incentivaremos a querer mais do que a vida
simples que tm aqui. Mas afirmo que  errado aprision-los na pobreza e na falta de oportu-
nidades. Ns temos obrigaes com eles e para mim isso significa dar-lhes liberdade de escolha.
Voc e eu sabemos o que acontece quando os direitos dos jovens so cassados, Emily. Ns j
presenciamos isso nos guetos urbanos europeus: homens jovens se organizando em gangues e se
tornando selvagens. No quero ver isso acontecendo por aqui. Tentei convencer meu av a
investir parte da vasta reserva da Coroa para pagar a instalao eltrica nessas reas remotas,
mas ele se recusa.
       Emily percebia a frustrao na voz de Marco. Ficou profundamente tocada por Marco ter
dividido com ela a conscincia do lado negativo que  manter as pessoas empobrecidas e
enfraquecidas.
       -- Talvez, quando voc for o rei... -- ela sugeriu, mas Marco sacudiu a cabea outra vez.
       -- Meu av  muito bom em impor condies e eu no quero cair na armadilha de ficar
com as mos atadas. E mais, parece que alguns jovens de Niroli j esto comeando a se revoltar
com as leis. No quero herdar a insatisfao quando subir ao trono, por isso decidi agir agora
para amenizar a situao.
       -- Mas o que voc pode fazer? -- Emily perguntou, em dvida. -- Se seu av se recusa a
permitir o suprimento de eletricidade...
       -- Eu no posso insistir para que seja feito -- Marco concordou. -- Mas posso prov-la por
outros meios. Em Londres, comprei alguns geradores para fornecer eletricidade para alguns
vilarejos. Meu av est furioso, claro, mas espero que volte atrs e aceite o que fiz como uma
maneira de faz-lo mudar de ideia sem perder o prestgio. Ele  um homem velho que governou
de forma autocrtica toda a vida.  difcil para ele, eu sei, mas a coroa tem que mudar ou corre o
risco de ter que mudar  fora.
       -- Voc acha que haver algum tipo de revolta?
       -- No imediatamente, mas as sementes esto l. E meu av ainda est determinado a
manter o poder absoluto.
       -- Voc finge que no, mas na realidade o entende muito bem. Acho que sente grande
compaixo por ele -- Emily disse gentilmente.
       -- Pelo contrrio, o que eu sinto  uma grande irritao, porque ele se recusa a ver o
perigo que o cerca. -- Marco se assustou, ao perceber que Emily o conhecia melhor do que ele
supunha. -- H tantas mudanas que eu gostaria de fazer, Emily.
       -- Voc viveu fora da ilha por muito tempo e est acostumado a tomar decises sem ter de
consultar os outros. Talvez esteja sendo difcil com seu av justamente porque ele percebe isso
em voc e teme por isso, e por voc. Voc mesmo disse que ele  um homem velho. Ele,
certamente, sabe que no pode continuar sendo rei, mas suponho que no queira reconhecer isso
publicamente e que parte dele deseje continuar governando Niroli atravs de voc. Quando voc
chega com seus planos, confrontando os dele, ele tenta obstru-lo, porque tem medo de perder o
poder sobre voc.
       -- Eu duvido que voc consiga faz-lo admitir qualquer uma dessas coisas.
       Emily sentia a frustrao na voz de Marco e, com isso, a nsia de consertar o que via de
errado. Ele seria um rei forte, ela reconheceu. Ao ouvi-lo falar, ela se convenceu da realidade de
sua prpria situao. Mesmo que por um milagre ele comeasse a am-la, no havia futuro para
eles. Ela no poderia ser sua rainha e tambm no poderia fazer nada para evitar que ele se
tornasse rei de Niroli, no agora, depois de ouvi-lo falar de forma to apaixonada sobre o povo
de seu pas. Se Marco tinha uma obrigao com o povo, ento ela tambm tinha obrigaes com
ele e com o amor que sentia por ele. Amar algum significava coloc-lo em primeiro lugar. A
maior necessidade de Marco era honrar suas obrigaes, e ele no poderia fazer isso com ela em
sua vida. Uma pequena sombra cobriu seus olhos. Ao perceber, Marco franziu o cenho.
       -- Eu estou lhe aborrecendo -- ele declarou.
       -- No -- Emily respondeu. -- No! Gosto de ouvi-lo falar sobre seus planos. Eu apenas
gostaria que tivesse me contado quem era quando nos conhecemos. -- Se ele o tivesse feito, ela
teria se protegido muito mais com relao  prpria vulnerabilidade e certamente, jamais teria
sonhado em terem um futuro juntos.
       -- No foi uma mentira deliberada da minha parte -- Marco se defendeu.
       -- Talvez no, mas voc poderia ter dito alguma coisa... Poderia ter me previnido. A, pelo
menos... -- Ela parou e sacudiu a cabea para no admitir sua prpria estupidez.
       -- Para levar o tipo de vida que eu queria, era preciso viver no anonimato e sem os
paramentos da realeza. -- Eu cresci aqui como um renegado, aos olhos do meu av. Eu era seu
herdeiro, mas me recusava a deix-lo me intimidar, como fizera com meu pai. --A expresso de
Marco mudou e Emily desejou se aproximar e confort-lo. -- Meu pai era muito gentil para
confrontar meu av. Quando criana, eu odiava perceber isso. Como forma de compensao, me
rebelei contra a autoridade de meu av e jurei provar para mim mesmo que eu tinha capacidade
de ser bem-su-cedido.
       -- Mas, enquanto esteve fora, sentiu falta da ilha e da sua famlia, do seu pai? -- Emily
perguntou.
       -- Sim, foi um choque quando ele morreu naquele maldito acidente na costa da ilha. Algo
que nunca imaginei que pudesse acontecer...
       E junto com a tristeza da perda do pai Marco teve que lidar com irreversveis mudanas
em sua vida, Emily reconheceu em silncio. Deve ter sido duro para ele: um homem acostumado
a controlar cada detalhe de sua vida pessoal, agora tinha que concordar, como rei, que grande
parte de sua vida estaria alm do seu controle. S de ouvi-lo Emily comeou a mudar os prprios
pensamentos, transformando sua amarga raiva e dor em compaixo e aceitao. Aquilo alterava
tudo para ela. Ser que ele percebia o quanto era sozinho? Seria uma escolha deliberada ou
acidental? E, se ele soubesse, se importaria ou simplesmente aceitaria como parte do preo a ser
pago pelo status real?
       -- Eu detestaria estar em seu lugar. -- As palavras saram antes que ela pudesse evitar.
       -- O que quer dizer? -- ele perguntou.
       -- Eu pude perceber o quanto seu povo  importante para voc, Marco, e como voc os
ajuda com veemncia, mas... -- ela parou e balanou a cabea. -- Eu no aguentaria pagar o preo
que est prestes a pagar para se tornar rei de Niroli. Por um lado, sim, voc ter poder e riqueza,
mas, por outro, no ter liberdade e nenhum direito de satisfazer seus desejos. Tudo ter que ser
pesado para ver o quanto afeta o seu povo.  uma responsabilidade muito grande. Suponho que
seja diferente para quem nasceu para isso. Estou comeando a entender por que prncipes s se
casam com princesas -- ela acrescentou. --  preciso ter nascido na realeza para compreender.
       -- No necessariamente. Voc est se saindo muito bem ao demonstrar grande
compreenso sobre o que est envolvido -- Marco lhe disse secamente. Eles nunca tinham
conversado to abertamente assim, e Marco ficou surpreso ao perceber o quanto valorizava as
palavras de Emily. Impulsivamente, ele diminuiu a velocidade do carro, segurou a mo dela e a
apertou Emily olhou para ele surpresa. Um gesto to terno e carinhoso no era muito tpico dele.
       -- Estou feliz por voc estar aqui comigo, Emily.
       O corao dela dava pulos com a delicadeza das emoes que a invadiam. Marco parou o
carro e inclinou-se para beij-la, um beijo muito profundo e carinhoso, contendo uma mensagem
que Emily no conseguia decifrar, mas que provocou desejos em seu corpo. Aquele
comportamento de Marco era totalmente incomum. O corao dela parecia ter asas, ela estava
tonta com a prpria felicidade.
       Entretanto, no permitiria que um raro momento como esse a deixasse esquecer o que
acabara de reconhecer. Ento, deveria deixar de privar-se do que sentia agora porque tinha
reconhecido que eles no tinham futuro juntos?
       -- Nessa altura do jogo, quando voc j foi longe demais,  natural que precise de algum
para refletir sobre as ideias e para confiar -- ela lhe disse -- e... -- interrompeu-se, incerta sobre
o quanto ousaria dizer sem se entregar.
       -- E? -- Marco sondou.
       -- E eu gostaria de ser essa outra pessoa -- Emily respondeu.
       Um homem jovem, alto, magro e com roupas largas estava no meio da rua, acenando para
o carro de Marco com uma expresso de satisfao.
       Emily olhou para Marco de forma interrogativa.
       -- Tomasso -- ele disse para ela, enquanto estacionava. -- Ele  o lder de uma gangue de
jovens Vialli, eu o escolhi para ser meu representante para cuidar dos geradores e para apresentar
os novos benefcios para os habitantes do vilarejo.
       No momento em que Marco abriu a porta do carro para sair, ele saltou sobre Marco,
exclamando:
       -- Alteza, Alteza, est aqui! O gerador, assim como o senhor prometeu. Construmos um
lugar especial para ele. Deixe-me mostrar...
       Uma mulher mais velha saiu de uma casa prxima gesticulando e olhando com uma
expresso de desaprovao.
       -- O que  isso? Onde est seu respeito com a nossa coroa? -- ela perguntou. -- Alteza,
desculpe meu desmiolado neto.
       Este era um lado dele que nunca tinha visto, Emily pensou, quando viu Marco sair do
carro para ajudar a velha mulher, aceitando a admirao com simpatia e mantendo uma
dignidade formal.  medida que mais pessoas o cercavam, mais ele se portava como o futuro rei,
tanto que Emily emocionou-se. Ela estava muito orgulhosa observando-o de dentro do carro e,
ao mesmo tempo, to dolorosamente distante. O que presenciava a deixava mais consciente do
quanto seria impossvel para eles sustentarem uma relao duradoura. Ela j percebia os olhares
curiosos e at mesmo hostis em sua direo. Notou que Marco havia sido questionado sobre
quem era ela.
       Meia hora depois ele voltou para o carro, acompanhado por um grupo de jovens risonhos,
enquanto Emily notou que o grupo mais velho do vilarejo mantinha-se um pouco mais afastado,
ainda olhando para ela com cuidado. Um homem barbado, mais velho foi at Marco e lhe disse
algo, sacudindo a cabea e apontando para o carro. Emily percebeu a expresso sria de Marco
enquanto ouvia.
       -- O que o velho homem lhe disse? -- ela perguntou, quando j estavam saindo do
vilarejo.
       -- Nada demais.
       -- Sim, ele disse. Ele falou alguma coisa sobre mim, no falou? --- Emily o pressionou.
       Marco olhou para ela. Rafael era o homem mais velho do vilarejo, era homem de muita
confiana de seu av. Ele no aprovava o gerador, e declarou isso. E ainda repreendeu Marco
quando viu Emily no carro.
       -- Trazer uma mulher dessa para Niroli! Onde est a vergonha dela? -- Rafael reclamou.
-- Ela aparece aqui descaradamente, como se no tivesse vergonha na cara -- ele disse a Marco
furiosamente.
       -- Rafael tem a reputao de ser muito determinado. Ele  ainda mais velho que meu av e
pensa que  o guardio da moral da ilha...
       -- Voc quer dizer que ele desaprova o fato de eu estar aqui -- Emily sups.
       -- O que ele pensa ou sente  problema dele -- ele retrucou.
       A realidade no era bem assim, as escolhas de Marco eram problema do povo de Niroli.
       Quando chegasse a hora de se casar, Marco refletiu, ele precisaria de uma mulher que o
ajudasse a cuidar do seu povo. Emily poderia perfeitamente preencher esse papel. De algum
modo, essa idia entrou indevidamente em seus pensamentos, onde no deveria estar. Assim
como no tinha o direito de permitir que Emily entrasse em seu corao. No seu corao? E agora,
no qu estava pensando? O fato de ter sentido raiva da objeo de Rafael  sua presena no
significava que ela havia encontrado um lugar no seu corao. Significava?


                                         CAPTULO ONZE

       Emily sorriu para si mesma ao estacionar o carro em um elegante spa da ilha. Apesar de
terem transado na noite anterior e ter sido sugesto dele que ela visitasse o spa hoje, Emily
preferiria ter a companhia dele. Entretanto, Marco estava muito ocupado com os compromissos
reais para ficar com ela.
       Para alvio de Emily, j fazia trs dias que no se sentia mal. Mas notou que, apesar de no
estar comendo muito, a cintura de sua saia preferida estava apertada. Mais desconfortveis
estavam os seus seios, inchados e enrijecidos.
       -- Posso ajud-la?
       -- Eu no tenho hora marcada, mas gostaria de saber se h possibilidade de ser atendida.
       -- Que tipo de tratamento gostaria? Aqui est uma lista com os que oferecemos e um
questionrio mdico. -- A recepcionista sorriu. -- A proprietria do spa  muito responsvel e
cuidadosa com os clientes, e devo ressaltar que algumas massagens mais vigorosas no so
recomendveis para mulheres grvidas.
       Grvida! Emily quase riu. Bem, ela, certamente, no estava. De repente, alguns fatos lhe
vieram  mente: o mal-estar, os seios doloridos, o aumento da cintura... Uma onda de mal-estar e
choque tomou conta dela.
       Ser que a recepcionista estava certa? Estaria grvida? Ela fez as contas mentalmente
enquanto o corao acelerava.
       Emily precisava sentar-se urgentemente, mas no ali. Em nenhum lugar onde a verdade
pudesse vir  tona e tornar-se uma ameaa para o filho que ainda no nascera. Foram segundos,
minutos no mximo, desde que percebeu a realidade, mas j sabia que no havia nada que
pudesse fazer para proteger a nova vida que crescia dentro dela. Ela no permitiria que nada ou
ningum colocasse a segurana ou a vida do seu beb em perigo!
      Emily encarou seu reflexo no espelho do banheiro e tentou no entrar em pnico. Havia
poucos indcios que demonstrassem estar grvida, a no ser o aumento da cintura. Quanto
tempo ainda teria at que Marco suspeitasse? Ela no poderia estar em Niroli quando isso
comeasse a acontecer. Podia ouvir a voz de Marco dizendo, bem no incio da relao, que no
poderiam ocorrer acidentes. E o que ele esperava que ela fizesse se isso acontecesse?
      Claro, o que ele quis dizer e no disse era que no queria nenhum bastardo na realeza.
      Mas ela no destruiria seu filho de modo algum. Preferiria destruir a si mesma.
      Todavia, era lgico para Emily que, mesmo que Marco no tivesse planejado, ele no
queria que ela tivesse um filho. No havia lugar em Niroli para a amante grvida do futuro rei,
ou para seu beb ilegtimo! O que faria? Emily nunca se sentiu to sozinha.

       -- E agora, os mais velhos do vilarejo dizem que suas ordens foram ignoradas, que o
galpo do gerador foi quebrado e o gerador, roubado. Voc percebe o que fez, o problema que
causou com sua interferncia?
       Marco se forava a contar lentamente at dez, antes de responder  ira de seu av.
       -- Est me dizendo que Rafael deu ordens para que o galpo fosse fechado com tbuas para
segurana dos habitantes do vilarejo? O que isso significa?
       -- A paz do vilarejo estava sendo destruda pelo barulho do gerador e de vrios aparelhos
eltricos. Vrios habitantes da regio reclamaram com ele que isso havia feito com que as
galinhas parassem de botar ovos e as vacas, de dar leite.
       -- E por causa disso ele suspendeu o uso do gerador? -- reclamou, incrdulo.
       -- Rafael diz que h muito tempo se preocupa com as tendncias de rebelio dos Viallis
entre esse grupo mais jovem. Agora que eles roubaram o gerador e se recusam a dizer onde est,
ele no tem outra escolha a no ser mandar puni-los.
       -- O qu?
       -- E mais, Rafael me disse que o vilarejo est  beira da anarquia, e que isso se espalhar
pelos outros vilarejos na montanha.
       -- Isso  loucura -- Marco disse ao av. -- Se algum deveria ser preso, essa pessoa  o
Rafael, com suas vises pr-histricas.
       -- O que eu vejo  voc como causa desse problema, com sua imprudente recusa em
obedecer a minhas ordens.
       Marco no podia mais ficar e ouvir aquelas coisas, corria o risco de ser provocado e entrar
em um combate com o av e com suas ideias antiquadas. Marco fez uma meia reverncia para o
rei Giorgio, virou-se e saiu da sala.
       Emily deveria estar voltando para a vila naquele momento. A imagem dela invadiu seu
pensamento. Ela deveria estar sentada  sombra e, quando o visse chegando, lhe lanaria um
sorriso de boas-vindas. Estaria calma e tranquila, e s de v-la sua frustrao desapareceria.
Nesse momento, ele admitiu, daria qualquer coisa para dividir com ela os acontecimentos da
manh. Emily era compreensiva e sabia ouvir, e era disso que ele precisava.
       Ele parou. Aquela palavra outra vez: "precisar." Isso o fazia perceber o quanto estaria se
sentindo sozinho se Emily no estivesse em Niroli. S quando a trouxe para a ilha reconheceu
como ela era boa com as pessoas e sabia resolver os problemas. Ter essa vlvula de escape e
poder conversar abertamente com ela sobre seu relacionamento com o av era muito gratificante
para Marco. Ele estava comeando a sentir que no gostaria que ela deixasse nem a vila nem sua
cama. Enquanto comeava a desconsiderar as regras reais em benefcio do seu povo, percebeu
que poderia fazer o mesmo quando sua vida pessoal estivesse envolvida e se beneficiar. A nica
maneira de manter Emily na ilha seria elev-la  posio de amante real e para isso teria que
encontrar um marido nobre para ela. Marco sabia que poderia encontrar esse marido mas
tambm sabia que Emily se recusaria veementemente a entrar nesse tipo de casamento, alm
disso, alm disso, o qu? Ele no queria que ela tivesse um marido.
       -- Emily.
       Ela ficou tensa ao ouvir Marco cham-la, quando ele entrou no ptio interno, onde estava,
sentada  sombra, com uma das mos instintivamente sobre a barriga.
       Era incio da noite. Ela percebeu algo estranho na voz de Marco. O que era? No era
cansao nem irritao, e certamente no era ansiedade. Mas de algum modo ela sentiu um aperto
no peito por ele. Era algo alm da prpria dor e medo por seu filho. Isso seria sempre assim? Ela
estaria sempre disposta a lhe dar o melhor do seu amor?
       -- Eu gostaria de ter chegado mais cedo -- Marco esclareceu --, mas tive que ir at o
vilarejo de Rafael para pr fim a alguns problemas.
       -- Que tipo de problemas? -- Emily perguntou, ansiosa.
       Marco sentou-se ao seu lado. Ela podia sentir o cheiro de poeira nele, depois de um dia
atarefado, mas por baixo disso tambm sentia o cheiro de sua sensualidade. Contudo, esta noite,
em vez de se encher de desejo, ela sentiu uma mistura to intensa de emoes que sua garganta
travou com as lgrimas. Eram lgrimas pelo filho deles, que nunca poderia conhecer o cheiro do
pai; lgrimas por ela, por ter que viver sem Marco. Mais que tudo, porm, lgrimas pelo prprio
Marco, que nunca poderia dividir com ela o sentimento nico decorrente de terem gerado juntos
uma vida. Seu filho, o filho deles, o primeiro filho dele. A emoo forte fez todo o seu corpo
estremecer, devastando-a com uma avalanche de amor e dor em iguais propores. Ela desejava
tanto o beb, sua criana! Emily era uma mulher moderna, financeiramente independente, com
sua prpria casa, trabalho e com muito amor pra dar ao filho. Um beb que jamais conheceria o
amor do pai, ela se deu conta, enquanto Marco respondia  sua pergunta, forando-a a
concentrar-se no que ele falava e a colocar de lado os prprios pensamentos.
       -- Rafael tentou fazer com que os habitantes do vilarejo parassem de usar o gerador -- ele
explicou. -- Ento, Tomasso e alguns outros amigos se rebelaram e roubaram o gerador. Rafael,
com a aprovao de meu av, puniu os jovens.
       -- No  bom que eles se sintam to reprimidos -- Emily sentiu-se obrigada a comentar.
       -- Eu sei -- Marco reconheceu. -- Se meu av fosse mais razovel, eu poderia dividir com
ele minha preocupao. Se esses jovens escolherem o caminho errado e se tornarem agressivos,
tudo isso poder resultar em uma agitao civil. Mas se eu comentar isso com ele, sua reao vai
ser mandar prend-los.
       -- Voc precisa encontrar um jeito de inclu-los em um dilogo aberto para que sintam
que seus interesses so levados em considerao -- Emily sugeriu.
       --  exatamente o que penso -- Marco concordou -- Eu j disse para eles que esse  um
problema que pretendo resolver assim que for coroado, e pedi que tenham pacincia. Tambm
sei que no momento em que comear a instituir as reformas, a velha guarda reagir, porque meu
av os doutrinou a achar que mudanas significaro perdas.
       Emily ouviu com pacincia. Ela via como Marco estava entusiasmado em tentar resolver a
situao. Tambm percebia que, quanto mais sentisse raiva e contrariedade com relao ao av,
mais difcil ficava um acordo.
       -- Eu no preciso lhe dizer que seu av  um homem velho -- ela retrucou. -- Seu orgulho
no permitir que ele admita que cometeu erros e que j foi longe demais. Talvez voc pudesse
apresentar essas ideias de modo que ele pense que so dele, pelo menos em pblico. -- Ela
percebeu, pela expresso de Marco, que ele no pretendia aceitar o que ela estava propondo.
Parecia que ele e o av eram homens to teimosos e orgulhosos que nenhum cederia em favor do
outro.
       -- Voc ainda no viu nada na ilha -- Marco disse abruptamente. -- Ns vamos consertar
isso amanh.


                                         CAPTULO DOZE
       -- Tem certeza de que dispe de tempo para fazer isso? -- Emily indagou, enquanto
Marco abria a porta do carro, antes de sarem para ver algumas coisas na ilha. Emily adorou
entrar no carro com ar refrigerado. Ela leu em algum lugar que a gravidez aumenta o fluxo
sanguneo e, com isso, a sensao de calor. Gravidez. Ela adoraria poder dividir sua felicidade
com Marco, mas, ao mesmo tempo, tinha medo da reao dele. Se ele a pressionasse a
interromper a gravidez, isso partiria seu corao. Mas o que mais ele poderia fazer? Mesmo que
estivesse preparado para entender e aceitar que ela queria ter esse filho sozinha, ela suspeitava
que o av dele seria totalmente contra. O velho rei pressionaria Marco para que ele resolvesse a
situao com ela. Ela no queria colocar Marco nessa posio e desejava manter o filho o mais
longe possvel do que considerava ser um ambiente negativo. A famlia real de Niroli podia ser a
mais rica do mundo, mas, pelo que Emily sabia, eles eram to problemticos quanto prsperos.
Ela desejava que o filho crescesse consciente de que possua a riqueza do amor, no de dinheiro.
Emily desejava que seu filho crescesse em um lugar bem longe de Niroli, sem o fardo de ser um
bastardo real. Ento, o que faria? Retornaria a Londres sem contar a Marco que teria um filho
dele?
       Emily sentia que esta era, certamente, a opo mais adequada. Mas teria foras para fazer
isso? Consegui na se afastar de Marco sem revelar o fato? Ela j amava o filho o suficiente para
fazer o que fosse preciso para proteg-lo, inclusive abandonar o homem amava. Contudo,
tambm amava Marco o suficiente para poup-lo da necessidade de levar em conta uma possvel
paternidade e os problemas que isso lhe causava? Seria forte o suficiente para negar sua vontade
em dividir as novidades com ele, mesmo sabendo que ele no poderia, ou no compartilharia,
sua crescente felicidade de ter um filho?
       Um filho era um extraordinrio presente que o destino estava lhe oferecendo. Mas no era
qualquer filho, era a semente do homem que ela amava. Poderia descrev-lo agora. De algum
modo, Emily j sabia que seu beb seria um menino. E quando fosse adulto o suficiente para
querer saber o nome de seu pai? Pensaria nisso depois. No momento, estava mais preocupada
com a sade do beb e com sair de Niroli sem que Marco percebesse alguma coisa. Como faria
isso? No podia simplesmente dizer-lhe que no o queria mais. Ele jamais acreditaria nisso.
       Talvez acreditasse se ela lhe dissesse que no estava satisfeita com o papel que
desempenhava em sua vida. Ela sequer era reconhecida como sua amante, e isso poderia refletir
mal na sua reputao profissional O prprio orgulho de Marco seria capaz de concordar com
isso. Na noite anterior, quando transaram, ele no questionou o modo como ela pediu para que
ele amenizasse os movimentos. Emily chegou a perder o flego, dividida entre a ansiedade
maternal e o desejo fsico que a estimulava. Mas Marco fora um amante habilidoso e sensual, ele
conhecia cada resposta corporal dela e sabia como provoc-las. No havia dvida que
brevemente ele perceberia o desejo de Emily em ser penetrada com menos intensidade.
       Ela sorriu ligeiramente. Marco ainda no sabia mas o passeio que fariam juntos hoje
poderia ser o ltimo. Agora ela estava destinada a trilhar um novo caminho, que usufruiria com
o presente que recebera dele.
       -- O cinto de segurana -- Marco lembrou. Antes que pudesse det-lo, ele se curvou sobre
ela para fixar o cinto de segurana. Imediatamente, Emily prendeu a respirao para se proteger.
No havia nenhuma protuberncia que pudesse denunci-la, mas ainda assim ela teve o impulso,
pela vulnerabilidade de seu filho -- Emily?
       Para seu espanto, Marco colocara a mo espalmada sobre sua barriga. Imediatamente ela
olhou para ele. Ser que ele desconfiou de alguma coisa intuitivamente?
       -- Voc parece bem melhor agora do que quando chegou aqui -- ela ouviu. -- O sol de
Niroli lhe faz bem.
       Emily liberou a respirao. Ele no desconfiou de nada, sua ansiedade estava inventando
coisas.
       -- Qualquer pessoa aproveitaria tudo isso. Eu sei que conheci muito pouco da ilha...
       -- Hoje vamos conhecer o mximo que pudermos -- Marco informou, assim que ligou o
carro. -- E minhas obrigaes reais tero que esperar.
       Seja qual fosse o futuro do filho de Marco, Emily ficava satisfeita em saber que no
seriam as obrigaes sombrias que Marco tinha de enfrentar. O pequeno garoto poderia crescer
sem conhecer o pai, mas estaria livre do fardo que Marco carregava. Emily se sentia
passionalmente grata por isso, mas, ao mesmo tempo, ficava arrasada pelo amor que sentia por
Marco. Ele saa da estrada e entrava em uma via bem estreita, que margeava uma encosta
rochosa com penhascos na di-reo do mar.
       -- Este era um dos meus lugares favoritos quando eu era criana -- Marco confidenciou, e
parou o carro.
       Emily entendeu por qu. A rea era totalmente selvagem. De certa maneira, a paisagem
era semelhante ao homem.
       -- Vamos descer.
       Emily no estava certa se desejava. A altura dos penhascos causava uma desconfortvel
vertigem, mas Marco estava to decidido que ela no queria explicar como se sentia.
       -- Eu costumava vir at aqui, olhar o mar e prometer a mim mesmo que um dia me
livraria desse lugar e de meu av, mas claro que, mesmo naquela poca, eu sabia que um dia teria
de voltar -- Marco confessou, quando estavam um pouco afastados do penhasco. Ele se curvou e
encheu a mo com o fino e pedregoso solo, jogando o mais longe possvel no mar.
       Ao observ-lo, Emily sabia que aquela era a representao de algo que fizera muitas vezes
quando menino, como forma de aliviar a raiva. Era uma emoo que ele dissipou parcialmente
ao deixar a ilha e cuidar da prpria vida. Mas isso nunca o abandonaria enquanto ele e o av
brigassem pela supremacia de um sobre o outro. E enquanto estivessem metidos nessa disputa,
outros sofreriam. Ela no permitiria que seu filho fosse um desses...
       De repente, ela se deu conta de que precisava contar a Marco que pretendia partir. Ela no
pde parar o movimento, j estava estendendo a mo para toc-lo e colocou-a no cotovelo dele.
Imediatamente ele se virou.
       -- Marco -- ela tentou comear, parando em seguida. Inesperadamente, ele a tomou nos
braos, beijando-a com tanta paixo que seus olhos se encheram de lgrimas.
       Por que ele estaria fazendo isso? Marco se perguntou. Ele sabia que no poderia continuar.
Apesar de, bem no fundo, saber que estava se tornando muito dependente dela e que ela era cada
vez mais importante para ele. Isso no poderia acontecer. No havia espao era sua vida para
aquele tipo de relacionamento. Ele era o futuro rei de Niroli e pretendia dedicar cada energia,
fsica e mental, para o seu pas e para o seu povo. Ele poderia derrubar as restries que as leis
reais impuseram por sculos, poderia abrir as portas para a populao de Niroli caminhar
livremente para um novo sculo. No havia, porm, um lugar legtimo em sua vida para o tipo
de relao que mantinha com Emily. Ele estava vacilando no modo como se sentia com relao a
ela agora. Isso comeou a acontecer recentemente, quando reconheceu que havia dentro dele
uma perigosa necessidade de estar perto dela, um desejo que ia alm do sexual. Essa emoo no
poderia existir, e no deveria ser nomeada, ou ter espao em sua vida.
       Ele comeou a se afastar dela e parou. Com um gemido abafado, apertou-a contra o peito e
beijou-a outra vez.
       A boca de Emily se oferecia, macia, seu corpo estava quente, e ele desejou possu-la,
preench-la, se perder nela e conhecer a paixo de am-la.
       -- Marco! -- Emily o impediu, controlando o prprio desejo e separando sua boca da dele.
Ela tremia dos ps  cabea, no com medo dele, mas dela mesma, e da intensidade dos seus
sentimentos. Ela tropeava nas palavras, desesperada.
       -- No  fcil dizer isso, mas a verdade  que eu no deveria ter vindo. Niroli  diferente
de Londres e o meu papel em sua vida mudou. No posso viver dessa forma, Marco. Desprezada
e ignorada pela Corte e forada a viver  sombra. Vou voltar para a Inglaterra assim que
possvel. Ser melhor para ns dois.
       Ela s estava falando o que ele j sabia, mas mesmo assim Marco ficou surpreso,
devastado. Ela no poderia fazer isso! Ele no estava pronto para deix-la ir. Deveria estar se
sentindo aliviado, mas, em vez disso, sentia-se brutalmente golpeado. Marco estava entorpecido
pela dor que o assolava e sufocava a razo, espalhando uma agonia insuportvel por todo o seu
corpo. Ele mal conseguia pensar no assunto ou fazer qualquer coisa a no ser tentar sobreviver a
essa opresso que o atormentava. Como isso podia ter acontecido? Como poderia estar
vivenciando isso? Os pensamentos e os sentimentos que tomavam conta dele eram to novos e
estranhos que o faziam sentir-se Como um desconhecido para si mesmo. Ele se sentia como um
homem possudo por... por qu? Marco sacudiu a cabea, incapaz de ordenar as palavras que
pulsavam em sua mente. Ele desejou que isso acontecesse, desejou que ela se fosse. Mas no
dessa forma... Ele deveria pedir que ela partisse... Mas como? Diria que no a queria porque
estava com medo que ela ficasse entre ele e suas obrigaes? Todo o seu corpo estremeceu,
assolado novamente pela dor.
       Por que Marco no dizia alguma coisa, qualquer coisa? Emily se preocupou.
       -- Eu amava a vida que levvamos em Londres, Marco. Mas as coisas so diferentes aqui.
O tempo que passamos juntos  um tempo roubado -- ela disse tristemente. --  melhor eu ir
agora.
       Marco podia sentir o batimento forte de seu corao ao perceber a objetividade na voz
dela.
       -- Nunca haver algum como voc em minha vida, Marco. Nenhum relacionamento ser
comparado ao que vivemos juntos.
       Era como se as palavras estivessem sendo arrancadas dela, e ela no conseguisse deter.
Afinal, eram todas verdadeiras, mesmo que Emily se sentisse ridcula ao pronunci-las.
       Agora no importava se reforava o erro acariciando-lhe o rosto. As lgrimas escorriam do
canto de seus olhos, ao sentir a textura familiar e spera da barba de Marco contra a palma suave
da sua mo.
       -- Emily.
       Ele segurou-a pela mo, e antes que ela pudesse interromp-lo, aproximou-se de seus
lbios e soltou-a, ao perceber que ela tremia. Ento, puxou-a e roubou-lhe um beijo. Ela no
resistiu. Em vez disso, ofereceu a doura que Marco exigia, enquanto se agarrava, indefesa a ele.
       Marco sentiu uma irresistvel necessidade o dominando e quis saber como seria fazer sexo
nesse penhasco. Ele no poderia deix-la partir sem essa ltima vez, uma ltima lembrana que
guardaria por todos os dias e noites de sua vida quando estivesse sem ela. Em muitas ocasies,
eles fizeram amor de forma bastante sensual e prolongada, quando ele deliberadamente se
propunha a satisfaz-la. Mas nenhuma das vezes fora to intensa ou emocionante quanto essa.
Porque essa era a ltima vez que poderia se proporcionar o que tanto havia negado: o direito de
sentir e ter emoes da mesma forma que havia satisfeito seus desejos carnais.
       Isso foi o mximo, Emily disse para si. Ela no era forte o suficiente para suportar esse
tipo de paixo. Era como se Marco tivesse arrancado fora, com as roupas, a barreira que ela
sempre notara nele.
       Quando eles se deitaram na grama coberta de lavanda, com o sol aquecendo seus corpos
nus, os beijos que ele dava no corpo de Emily eram acalorados e ardentes de desejo, indo alm do
meramente fsico Como se tivessem combinado, nenhum deles disse uma palavra. Palavras s
poderiam ser mentiras ou pior, trazer sofrimento. Era melhor assim, que a ltima lembrana que
guardariam um do outro fosse repleta da conscincia do que compartilharam e do que jamais
teriam outra vez, mas sem palavras. Ao toc-lo, Emily percebia que jamais o amara tanto.
       Eles se beijaram e se tocaram, os lbios colados os corpos insistentes tentando
desesperadamente se agarrar a cada segundo do prazer que compartilhavam.
       Ela guardaria as lembranas desse dia como um tesouro para o resto da vida.
       Ela sorriu preguiosamente para Marco, quando ele apoiou-se sobre ela.
       -- Eu no quero que voc v.
       Marco no tinha idia de onde as palavras emergiram. No! Isso era mentira. Ele sabia
exatamente de onde elas tinham sado, e por qu. E mesmo que no soubesse, seu pesado e
golpeado corao teria revelado. O que diabos estava fazendo, quando j tinha decidido que ela
deveria ir? O que acontecera com ele para mudar de idia devido a alguns minutos de bom sexo?
Mas no era o sexo bom que ele temia perder era a prpria Emily.
       Emily imaginou se alguma coisa mais em sua vida poderia ser to pungente quanto isso.
Marco nunca, jamais pediu qualquer coisa a ela, quanto mais implorar de forma to comovente!
Ela adoraria se jogar nos braos dele e cobri-lo de beijos apaixonados, enquanto se declarava e lhe
dizia que no havia nada na vida que desejasse mais do que estar com ele. Mas como poderia?
       -- Marco, sinto muito. Eu no posso. -- Sua voz era quase um sussurro, mas Marco pde
ouvir. Ele largou-a abruptamente e se afastou.
       Ela levantou-se sozinha e chamou-o, mas ele ja estava indo na direo do carro.
       -- Marco -- ela protestou. -- Por favor, me escute...
       Ele parou de caminhar e se virou. Ela percebeu seu peito inflar-se quando ele respirou
fundo. A tristeza que a invadia no era s dela, era de ambos. Emily sabia o que tinha de fazer,
era sua responsabilidade renunciar naquele momento, mas como poderia ir embora deixando-o
pensar que ela no queria ficar com ele? No poderia, ela decidiu. Sim, ela tinha o beb em quem
pensar. Sim, ela temia pela reao de Marco, ao saber da gravidez. Mas ela tambm amava
Marco e o pedido para que ela ficasse era muito precioso, Emily no podia negar que isso a
afetara.
       Ela respirou fundo, era a coisa mais difcil que j fizera na vida.
       -- Eu no quero deix-lo, Marco, mas  necessrio. Eu terei um filho seu. Estou grvida.
       O qu? Marco sentia as palavras de Emily lhe destruindo internamente.
       -- Eu sei que voc disse no comeo do nosso relacionamento que no deveriam acontecer
acidentes -- Emily continuou, cuidadosamente, diante do silncio tenso de Marco -- e... e  claro
que agora eu entendo o que voc disse. O bastardo do futuro rei de Niroli no  um ttulo que
desejo para o nosso beb -- ela encolheu os ombros. -- A verdade  que no quero que ele tenha
ttulo algum, e se h alguma coisa que me alegra no meio disso tudo,  isso. Nosso filho no ter
que viver da forma controlada e confinada como a sua. O que desejo para ele, acima de tudo,  o
tipo de liberdade pessoal que voc no tem e no poder dar para seu filho legtimo. Eu quero
que ele cresa em uma casa repleta de amor, onde o mais importante seja ele encontrar o prprio
caminho na vida e descobrir seus talentos. No quero que o futuro dele seja corrompido por
riqueza e posio. No quero que ele tenha de carregar o mesmo fardo que voc, Marco. No
posso dar a ele um pai, mas posso lhe oferecer o direito de definir a prpria vida, e essa ser a
coisa mais valiosa que seu filho herdar.
       Por alguns segundos Marco ficou muito surpreso com o que acabara de escutar. Ele tomou
conhecimento da tremenda importncia do papel que representava para a famlia no momento
em que nasceu. Era difcil entender que algum poderia no respeitar aquilo. Mas ele podia
entender o que Emily queria dizer. O sentimento de isolamento e solido, de ter perdido coisas
que jamais poderia recuperar e a conscincia de que em algum lugar, de algum modo, ele havia
sido golpeado pelas costas. Com esse pensamento, Marco fora levado pelas dolorosas lembranas
dele enquanto menino, ansiando pela liberdade de ser ele mesmo. Ele via a angstia e o esforo
de seus pais e, claro, a raiva de seu av. Ele tambm ouvia a prpria voz dizendo:
       -- Quando eu crescer e puder fazer o que quiser no serei um prncipe! -- Mas para sua
surpresa, lentamente sua posio e o que isso significava foram remodelando sua personalidade.
Ele costumava imaginar dois garotos, ambos de cabelos escuros e robustos. Um deles era
sorridente, despojado e brincava feliz com os amigos; o outro, tinha olhos tristes, era solitrio e
mantido  distncia pelos amigos, protegido pelos privilgios, ou aprisionado por isso?
       Que bobagem era essa? Marco expulsou as lembranas se recusando a admiti-las e se
deixou tomar pelo orgulho.
       -- Voc est sendo ingnua. Ningum mais compartilhar com voc essas ideias, Emily.
Na verdade, vo consider-la uma tola. Alm disso, ser rei de Niroli  mais do que todas essas
coisas -- ele retrucou. --  fazer a diferena para o meu povo, conduzi-lo para um futuro melhor.
Voc, realmente, acha que nosso filho, meu filho, agradecer por ter negado a ele um direito de
nascena?
       -- Ele no tem direitos de primogenitura aqui em Niroli. Eu sou sua amante, e ele ser
ilegtimo.
       -- Ele tem o direito que eu escolher dar a ele.
       -- Reconhecendo-o e fazendo-o encarar o mundo como um filho com menos direitos do
que o nascido em um casamento real? Fazendo-o crescer em um ambiente no qual sempre ser
menos aos olhos deles, e, em ltima anlise, aos seus tambm?
       -- Ele ser um membro da famlia real de Niroli. Como pode pensar em negar a ele esse
direito? Voc realmente acha que ele agradecer quando for adulto e perceber o que perdeu?
       Entre uma frase e outra, eles se tornaram adversrios, Emily reconheceu.
       -- No importa ficar discutindo sobre os nossos sentimentos -- ela disse. -- Voc ainda
no  o rei Marco e eu duvido que seu av receberia de bom grado o nascimento de um filho
ilegtimo de uma mulher de status baixo como eu.
       As farpas na voz de Emily eram suficientes para alterar o nimo de Marco. De algum
modo, ela sabia a opinio que o av de Marco tinha a seu respeito.
       -- O fato de eu ser o pai j lhe garante automaticamente seu status -- Marco discordou, e
percebeu que suas palavras a deixaram mais enfurecida.
       -- Sim, como o seu bastardo, um bastardo real, eu sei. Mas ainda assim, ele ser seu
bastardo. Eu no o deixarei passar por isso, Marco. Vou voltar para casa.
       -- Niroli  minha casa e  aqui que vocs vo ficar. Quando descobriu sobre a gravidez? --
ele perguntou de repente.
       -- H pouco tempo. Eu no imaginava... -- Emily desviou o olhar de Marco, relembrando
o quanto ficara chocada. -- Eu nunca teria aceitado vir para c com voc se soubesse.
       -- Como pretendia me informar que eu era pai? Pelas notcias no The Times?
       Emily acovardou-se ao perceber a brutalidade em sua voz.
       -- Isso no aconteceria -- ela respondeu com calma. Teria sido tolice da parte dela ceder
em seus argumentos para consol-lo. Agora, ela j havia criado um outro pacote de problemas.
Por que foi contar para ele? Porque, no fundo, esperava... que ele a pegasse nos braos e dissesse
que estava animadssimo com o fato de estar grvida dele?
       -- Sinto muito se o deixei estarrecido. Eu mesma fiquei surpresa ao saber. No queria que
voc pensasse que eu estava partindo porque... -- porque eu no o amava... essas palavras ficaram
presas na garganta. Como poderia pronunci-las se sabia que ele no desejava aquele amor? --
Eu queria que voc soubesse que eu tinha um bom motivo para deixar a ilha -- ela emendou. A
voz de Emily ficou mais firme, ao enfatizar: -- Um motivo do nosso interesse. Ns j sabamos
que algum dia teramos que nos separar. O fato de eu ter acidentalmente concebido um filho seu
s fez essa partida tornar-se mais urgente. Ns sabamos disso. Eu no serei sua amante grvida,
Marco.
       Emily teria o filho dele, ou, melhor, deles! Todas essas emoes estranhas apertavam o
corao de Marco.
       -- Est com quanto tempo? -- ele perguntou bruscamente.
       Emily sentiu como se tivesse levado um banho de gua fria. Era isso que ela havia. Uma
discusso com ele na qual tentasse questionar que ela havia programado a gravidez, coisa que ela
absolutamente no teve a inteno de fazer.
       -- No tenho certeza -- admitiu honestamente.
       -- Eu acho que pode ter acontecido quando tive aquele problema no estmago. Lembro-me
de ter lido em algum lugar que aquele tipo de coisa pode anular o efeito do anticoncepcional. Eu
deveria ter pensado nisso naquela poca, mas no o fiz. -- Ela levantou a cabea e disse com
firmeza: -- Voc no precisa se preocupar, Marco. Eu estou completamente preparada para
assumir a responsabilidade pelo meu filho sozinha.
       -- Meu filho -- Marco a interrompeu bruscamente. -- A criana  meu filho, Emily.
       Ela olhou para ele indecisa. No lhe ocorrera que ele reagisse assim. Ele parecia quase to
possessivo com relao ao beb quanto ela.
       -- No quero mais discutir sobre isso, Marco. No h necessidade. No quero mais ficar
aqui.

       O sol da manh se estendia sobre o ptio. O caf que Maria lhe trouxera uma hora antes j
estava frio e Marco estava mergulhado em seus pensamentos. Ele no deixaria Emily partir e
no permitiria que seu filho fosse criado em nenhum outro lugar alm de Niroli. Eram
princpios inaceitveis e imutveis a que ele se dava o direito como futuro rei e como pai do filho
que Emily esperava. No era mais uma questo do que ele fazia ou do que no fazia, era uma
questo de obrigao real, de orgulho prprio com o seu nome e com o seu primeiro filho.
       Era ridculo que Emily sugerisse que o filho deles teria benefcios diferenciados do seu
possvel filho legtimo. Tolice da parte dela achar que ele, um dia agradeceria a ela por t-lo
privado do status real. Marco poderia ter usufrudo sua liberdade em Londres, mas jamais se
esqueceu de quem ou o que era. Ter sangue real e poder reivindicar isso, mesmo tendo sido
concebido fora das leis vigentes, era um benefcio que no poderia ser ignorado. Seu filho, ao
crescer em Niroli como filho reconhecido, poderia ansiar por tudo o que h de melhor e, quando
crescesse, teria um posto de autoridade na Corte do pai. Ele seria reverenciado, respeitado,
exerceria o poder e estaria capacitado para auxiliar seu legtimo meio-irmo quando esse se
tornasse rei. Ser que ele se sentiria aprisionado por esse status real como Marco se sentia? No!
       Essa criana poderia ter muita coisa, desde que Emily estivesse preparada para perceber
isso. Ela no possua o status de uma amante real, era verdade. Seu av, porm, apesar de todos
os seus erros e teimosias, tambm tinha um forte senso de obrigao e de famlia. Ele tambm
gostaria que seu bisneto permanecesse em Niroli. Havia um jeito de tornar possvel a
permanncia de Emily e fazer com que ela e seu beb fossem respeitados pelo povo.
       Marco se virou ao perceber que Emily se aproximava do ptio. O sol a deixara com a pele
dourada, substituindo a palidez de Londres. Ela ainda no dava sinais visveis de gravidez, mas
irradiava um brilho forte, um ar de maturidade. Ao observ-la, Marco experimentou uma ligeira
determinao possessiva em no deix-la partir. Ela teria um filho seu. Apesar de acidental e no
planejado, isso no alterava suas responsabilidades paternas ou o fato de que um beb de sangue
real estava para nascer. Quem mais, a no ser ele, poderia contar para essa criana sobre sua
herana. E em que outro lugar a no ser aqui em Niroli?
       -- Eu acabei de encontrar Maria e ela trar mais caf fresco para voc.
       Isso soava familiar e confortvel. Emily estava cansada. Ela dormira pouco, os
pensamentos confusos e tumultuados no a deixaram.
       -- Eu no estou preparado para deix-la partir, Emily. Voc e meu filho ficaro aqui,
onde  o lugar de vocs. O que me ocorre  que a melhor forma para assegurar o futuro de nosso
filho e sua posio na Corte  o casamento.
       Casamento! Emily quase derrubou o copo de gua que estava bebendo. Marco queria se
casar com ela? Ela tremeu, dos ps  cabea, tamanha era sua alegria. Lgrimas de emoo
encheram seus olhos. Ela apoiou o copo e protestou:
       -- Marco, no est dizendo isso. Como pode se casar comigo?
       Pela expresso dele, ela imediatamente percebeu que alguma coisa estava errada.
       -- Eu no posso me casar com voc -- ele disse secamente. -- Voc sabe disso. Que diabos
a fez pensar que eu poderia?
       Por que ser que ele sentia um enorme peso sobre os ombros? Marco no poderia se casar
com Emily e estava surpreso por ela ter pensado o contrrio. Por um segundo, ao ver a felicidade
nos olhos de Emily ele sentiu que... Sentiu o que? Uma felicidade recproca? Isso era ridculo!
       -- Voc precisa de um marido e uma posio na Corte, Emily. Entre as famlias reais
europeias h uma tradio na qual um nobre prximo ao trono se casa com uma amante real.
Esse tipo de casamento  mais um acordo no qual todas as partes envolvidas se beneficiam. Aos
olhos do mundo, concede respeitabilidade  amante e aos filhos que ela venha a ter. O nobre em
questo, claro,  recompensado por esse papel e...
       -- Pare com isso. Pare. Eu j ouvi o suficiente! -- Emily levantou-se. Ela mal conseguia
respirar, mas esforou-se para falar. -- Eu pensei que o conhecia, Marco. At senti pena de voc
pelas responsabilidades da coroa que deve carregar. O homem que pensei conhecer nunca, nem
em mil anos, se permitiria deixar corromper pelo poder e pelo orgulho a ponto de sugerir o que
voc acabou de me sugerir!
       -- Eu propus uma soluo tradicional especfica para um problema real -- Marco
persistiu. -- Voc est exagerando.
       O ataque de Emily o fez sentir-se como se estivesse fazendo algo errado, em vez de
recomendar uma soluo lgica para o problema deles. Uma soluo lgica que seu av teria
sugerido? Estaria sendo pressionado pela posio real a agir como seu av? O tipo de homem que
ele jurou jamais se tornar? Sua conscincia crtica no se calaria e esse desprezo ecoava de forma
desconfortvel internamente.
       -- Estou exagerando? Olhe para voc, Marco. Tente enxergar-se com os meus olhos e
depois repita o que acabou de me oferecer como soluo. Voc quer subornar um outro homem
para se casar comigo de forma que... de forma que o que? Que voc possa ter seu filho aqui,
adequadamente legitimado por um casamento de convenincia entre dois estranhos. E eu?
Espera que eu faa sexo com ele voluntariamente, conceda-lhe filhos e seja sua esposa no
verdadeiro sentido da palavra?
       -- No, nem pensar nisso. -- A imediata e grosseira negao pegou Marco de surpresa,
mas ele no poderia retirar as palavras. Ou negar o violento sentimento de posse que tomou
conta dele ao pensar em Emily com outro homem na cama.
       -- Que tipo de homem  voc, Marco, para pensar que eu me venderia por um arranjo
desse tipo? Mas eu estava me esquecendo, voc no  um simples homem, ? Voc  um rei! No
ficarei na ilha um s minuto a mais do que o necessrio. Todas as coisas que voc mencionou s
reforam as minhas razes para no querer que meu filho cresa aqui. Sua proximidade com o
trono o corrompeu, mas no pretendo deixar que isso corrompa meu filho tambm.
       -- E eu no pretendo deix-la sair de Niroli.
       Eles foram amantes muito prximos, mas agora eram inimigos envolvidos em uma
batalha amarga para decidirem o futuro do filho que esperavam.


                                         CAPTULO TREZE

      O avio j havia decolado, mas Emily ainda mantinha a respirao presa. Talvez
esperando que Marco procurasse evitar que ela deixasse a ilha.
       Ela detestou ter que apelar para a ajuda do av de Marco furtivamente. A princpio, o rei
recusou-se a v-la quando ela o visitou secretamente no palcio. Ela j esperava tal atitude e
disse para o indivduo uniformizado:
       -- Por favor, diga a Sua Majestade que o favor que tenho para pedir ir beneficiar a ele, a
mim e o trono de Niroli.
       Ela teve de esperar por mais de uma hora para finalmente ser levada  presena do rei.
Emily ficou impressionada ao ver o quanto Marco se parecia com ele: os belos traos de Marco
ainda eram visveis no perfil do velho homem.
       Ela escolheu o momento certo. Esperou que Marco fosse para as montanhas ver Rafael
antes de programar sua visita ao palcio.
       -- Eu quero deixar Niroli -- ela disse ao rei Giorgio. --- Mas Marco no me permite
partir. Ele disse que far tudo para me deter aqui. -- Ela no contou ao rei sobre a gravidez, com
medo que ele repetisse as intenes de Marco em criar o filho sob um casamento arranjado entre
ela e um nobre.
       -- S o senhor tem autoridade para me deixar sair sem o conhecimento de Marco.
       -- Por que eu faria isso? -- o rei a desafiou. Emily estava preparada para aquilo.
       -- Porque o senhor no me quer por aqui -- ela retrucou. -- O senhor no me considera
boa o suficiente para ser amante de Marco.
       -- Ele no  o homem que pensei que fosse se no consegue prover os benefcios
necessrios para mant-la em sua cama, se  l que ele a deseja.
       -- Marco  muito homem para qualquer mulher -- Emily o defendeu. -- Mas eu sou
muito mais mulher para estar preparada para dividi-lo com o trono e tudo mais que isso exige.
       Emily achou ter percebido um leve brilho de respeito no olhar do rei, antes de assentir.
       -- Muito bem. Eu a ajudarei. Ser providenciado um vo real somente para voc e eu me
certificarei de que Marco seja mantido longe at a partida do avio.
       O rei manteve a promessa que lhe fizera e agora ela estava a caminho de casa. Emily
comprimiu os olhos para deixar as lgrimas escorrerem e pressionou a mo contra a barriga,
como se estivesse se desculpando com o beb pelo que estava fazendo.
       -- Voc pode no entender isso agora, mas estou fazendo isso por voc e pelo seu futuro.

       -- Como ousou fazer isso? -- Com o rosto plido de raiva, Marco ergueu-se contra o av
esquecendo-se do protocolo real em sua ira. Agora entendia por que Rafael o havia detido por
tanto tempo no vilarejo com suas interminveis reclamaes contra o jovem Tomasso e seus
amigos.
       Quando ele retornou  vila e no encontrou Emily, Marco exigiu uma explicao de
Maria, que informou que um carro com a insgnia real fora busc-la.
       Ele foi direto para o palcio e exigiu ser recebido pelo av.
       -- Emily me solicitou um favor. Ela temia que voc a mantivesse aqui contra a vontade
dela. Naturalmente, eu a ajudei.
       -- Naturalmente -- Marco concordou irritado, e ficou com mais raiva ainda ao perceber
que Emily fora elevada da condio de prostituta para a de algum com quem seu av estava
disposto a conversar na intimidade. -- Afinal, voc nunca a quis aqui mesmo.
       -- Seja qual for o papel que tenha desempenhado em sua vida em Londres, no h lugar
para ela aqui em Niroli. Ela prpria concordou com isso e, ao faz-lo, demonstrou melhor senso
e conscincia da importncia do seu futuro papel como rei do que voc, Marco. Confesso que
fiquei impressionado com a compreenso que ela tem das suas responsabilidades. Ela entende
completamente o que voc herdar quando se tornar rei de Niroli.
       -- Ela tambm entende que ser a me do meu filho -- Marco disse com toda a clareza ao
av. -- Foi por isso que ela partiu, mas no acredito que tenha lhe contado isso.
       -- Ela ter um filho seu?
       -- Sim -- Marco confirmou.
       O rei levantou as sobrancelhas contradas.
       -- Mas isso altera tudo. Por que no me contou? Ela deve ser trazida de volta, e j! E se
essa criana que ela carrega for um menino?  impensvel que ele cresa em outro lugar. Filhos
so um precioso bem Marco, mesmo que ilegtimos.  importante que essa criana cresa em
Niroli, ciente de suas obrigaes e responsabilidades com a coroa. Este conhecimento no pode
ser incutido nele precocemente. Quando ser o parto? H muito a ser feito. A creche real tem de
ser preparada e tambm uma criadagem adequada para cuidar dele. A me pode ficar em
Londres, se desejar. Alis, seria melhor dessa forma -- o rei continuou.
       O av de Marco apenas estava retratando uma situao que ele prprio j delineara para
Emily. Mas, em vez de se sentir justificado, Marco pde sentir um peso sobre ele.
       -- Voc ordenar a esta mulher que retorne, e ir inform-la que  ilegal retirar uma
criana de sangue real da ilha, sob pena de morte.
       Marco sacudiu a cabea.
       -- No seja ridculo, vov. Em alguma poca medieval talvez esse tratamento pudesse ser
aplicado, mas posso lhe informar que a Corte britnica condenar isso e que Emily est
totalmente dentro dos seus direitos em querer manter a criana com ela. Eu, certamente, a
apoiaria nisso. Eu quero que meu filho cresa aqui, sim, mas tambm quero que a me dele esteja
aqui, com ele.
       -- Sentimentalismo ridculo. Eu culpo sua me por isso, e seu pai. Ele deveria ter insistido
para que ela seguisse a tradio e o entregasse ao responsvel nomeado para o cargo de cuidar de
voc como um futuro rei, em vez de se meter em assuntos que no lhe diziam respeito. Graas a
ela voc desenvolveu essa tendncia  desobedincia que o coloca em conflito com suas
obrigaes.
       Marco se esforou para no dizer nada. Pelo contrrio, concentrou-se em sua infncia. Ele
podia se ver brincando e correndo, com sua me o seguindo, assim como recordava dos olhares
de desaprovao dos velhos cortesos que seu av insistia serem os responsveis pela sua criao.
Sua me, se ainda estivesse viva, teria apoiado e ajudado Emily. Elas teriam se dado bem. Seu
pai lutou para se opor  insistncia do rei para que Marco fosse criado como um prncipe, no
como membro de uma famlia amorosa. Seu av tentaria impor suas vontades sobre o bisneto,
Marco sabia. Ele franziu o cenho, estava ciente do seu desejo de proteger o filho do treinamento
real e da disciplina rgida a que fora submetido na infncia. No era como o seu pai, lembrou a si
mesmo. Marco era forte para garantir que seu filho no fosse submetido ao sofrimento da sua
juventude.
       -- Aproveitando que voc est aqui -- seu av continuou, altivamente --, decidi que os
geradores sero removidos da ilha. Eles esto causando muito conflito entre a nossa gente. 
como eu pensei: esses jovens dissidentes das montanhas foram encorajados pelos Viallis para
unirem-se e desafiarem a autoridade dos mais velhos do vilarejo. E a culpa sobre isso recai sobre
voc, Marco. Ao se colocar publicamente contra a minha vontade, voc se tornou uma
autoridade simblica para a rebelio deles. Vrios informantes me contaram que eles esto
apenas esperando voc assumir o trono para pression-lo e fazer exigncias que jamais podero
ser cumpridas. Se houver mais algum problema, vou impor um toque de recolher que lhes
ensinar a respeitar a lei e a coroa.
       -- Se esse jovens esto com raiva ou cheios de ressentimentos, quem pode culp-los? --
Marco revidou. --  preciso relaxar o controle sobre as vidas deles e no pression-los a ponto de
obrig-los a ampliar o conflito. Impondo um toque de recolher, tudo o que voc far ser
reprimir os sentimentos deles e alien-los futuramente. O que precisamos fazer  estabelecer um
frum onde possam ser ouvidos e orientados.
       -- O qu? Recompens-los por suas rebelies e desrespeitos? Eles precisam aprender uma
lio, no ser mimados.
      -- Tome cuidado, vov -- Marco advertiu. --Alimente o senso de injustia deles impondo
as vontades da coroa e no final pagaremos um preo alto.
      -- Ah...! Voc  muito gentil, muito liberal. No pode governar Niroli dessa forma! -- O
velho rei fechou a mo e bateu com fora na mesa em frende a Marco. -- Deixe-os saber que
devem temer sua raiva.
      Assim como ele aprendeu a temer a raiva de seu av, quando criana? Como seu filho
teria que aprender a tem-la? Marco estava repugnado. Ele retornou para Niroli com o
compromisso de trabalhar para o povo, mas agora comeava a questionar sua habilidade. Com o
av contra as mudanas que gostaria de fazer e com vises completamente opostas s do rei, eles
no estariam mais prximos de partir Niroli ao meio do que qualquer outra coisa? Talvez Emily
estivesse certa em no querer que seu filho crescesse ali.
      Marco fechou os olhos, concentrado. No, seu filho ficaria ali, perto do pai. Emily teria
que aceitar sua determinao em desempenhar seu papel real, gostasse ou no...


                                     CAPTULO QUATORZE

       Emily aconchegou-se na confortvel poltrona de sua agradvel sala de estar em Chelsea,
olhando anestesiada para a notificao que segurava. No que precisasse l-la outra vez. Ela j
havia decorado cada palavra, de tanto que lera a notificao, que chegara h dois dias. O clnico
que a atendera no hospital para o exame de ultra-sonografia das vinte semanas de gravidez
gostaria que ela retornasse para repetir o exame.
       Ela ligou para o hospital assim que recebeu a notificao e a enfermeira assegurou que no
precisava se preocupar. Mesmo assim, Emily estava muito preocupada. Nada fora dito, ela sabia
que o exame mostrara que o beb tinha todos os dedos dos ps e das mos, alm de confirmar sua
suspeita de que era um menino. Se ela no tivesse recebido a notificao para repetir o exame,
no teria dado a menor importncia  hesitao da enfermeira. Por que teria hesitado? Havia
algo errado com o beb? Oh, Deus, por favor, no deixe que isso acontea! Estaria sendo punida
pelo que tinha feito? Por ter deixado Niroli? Por estar planejando banir Marco da vida de seu
filho?
       Mas isso era para proteger o beb, no para punir Marco, ela protestou consigo mesma.
       O toque da campainha a trouxe de volta dos pensamentos angustiantes. Deveria ser
Jemma. O susto de ter sido convocada para um segundo exame a fez perceber o quanto estava
sozinha no mundo, contando apenas com a amiga e assistente. Como resultado, Jemma comeou
a adotar uma postura quase maternal com ela e insistiu em acompanh-la no segundo exame.
Emily levantou-se para atender  porta. Quando abriu-a, mal pde acreditar. No era possvel
que Marco estivesse parado  porta.
       Mas era Marco, e estava entrando na sala e fechando a porta. Ele mantinha a mesma
expresso impressionante de quando estava no lado de fora. Por um tempo, desde que ela
retornara de Niroli, Emily pensou que ele pudesse vir atrs dela para obrig-la a retornar.
Entretanto, a chegada da carta era uma preocupao muito maior para tirar-lhe o sono. O
corao de Emily batia desordenado. Alm de sua presena, ele trouxe para dentro de casa
tambm seu cheiro. Lgrimas de saudades brotaram em seus olhos e embaaram sua viso.
       --  isso que voc pretende levar para o hospital? -- Sem esperar uma resposta, Marco
pegou uma cesta de palha na qual ela colocara tudo que achou que fosse precisar.
       -- O hospital? -- ela gaguejou, assustada com aquelas palavras.
       -- Estou vindo da loja. Jemma me contou sobre a ultra-sonografia. Eu tenho um txi
esperando. Onde esto as chaves?
       -- Marco, no h necessidade. Jemma vai comigo.
       -- No vai. Eu vou com voc, e h necessidade de eu fazer isso.  o meu filho que voc
est carregando, Emily. Est pronta?
       Ela no deveria permitir que ele assumisse o controle dessa maneira, Emily disse a si
mesma, mas o estresse dos ltimos dias a deixara to fraca e exaurida que decidiu no discutir. E
para ser sincera, seria bem confortante t-lo com ela... com eles. Ela colocou a mo no ventre e
sussurrava interiormente palavras doces para o beb: no importa o resultado do exame ou o que
eles digam, ele teria direito  vida e seria amado por ela.
       Enquanto Marco conduzia Emily ao txi, notou que a preocupao com o beb roubou
dela o tom corado que adquirira enquanto esteve em Niroli.
       Marco falou o nome do hospital para o taxista e ignorou a surpresa de Emily. Jemma deve
ter contado para ele o que aconteceu. De fato, ela estava to aliviada em v-lo que lhe contou
tudo o que precisava saber sem que ele sondasse. Ele tinha ido para Londres com a nica
inteno de levar Emily de volta e de comunicar-lhe que o seu filho nasceria em Niroli, e
permaneceria l, mesmo que ela no quisesse fazer o mesmo. Desde a ltima vez em que a viu,
os sentimentos de Marco com relao a Emily eram de raiva e hostilidade. Ela procurou seu av
secretamente, o abandonou e insultou. Ela o deixou noites acordado analisando o que dissera e o
que no dissera, tentando encontrar meios para que pudesse juntar as peas do quebra-cabea em
que sua vida se transformara. Tentava arrumar um modo para t-la morando com ele em Niroli,
e de bom grado. Depois, Marco analisava tudo outra vez, para certificar-se de que a razo pela
qual a queria era somente por causa do filho. Porque, de algum modo, por mais que fosse difcil
admitir, bem no fundo, ainda existia uma suspeita de que desejava Emily.
       Quando soube por Jemma que Emily precisaria fazer um segundo exame, um terremoto
emocional mudou tudo dentro dele, de forma que agora s pensava e se preocupava com Emily e
com o filho.
       -- Algum lhe disse por que est repetindo o exame? -- Marco perguntou, assim que o
txi estacionou no hospital.
       Emily negou com a cabea.
       -- Mas voc perguntou?
       -- Eu liguei para o meu obstetra e ele me informou que em alguns casos isso  necessrio.
       -- Mas no explicou por qu?
       -- No -- Emily admitiu, insegura. As palavras concisas e a expresso tensa de Marco
aumentavam seu medo.
       Marco a conduzia como um marido comprometido. Mas Emily sabia que no era bem isso
e no deveria ceder  saudade e deixar que ele a tranquilizasse, que no havia motivo para se
preocupar e que tudo daria certo.
       -- Emily? Estamos prontos, se voc quiser nos acompanhar,  por aqui -- chamou a
enfermeira.
       -- Irei com ela -- Marco informou  enfermeira.
       -- Sim, claro. O caminho  por aqui -- a enfermeira repetiu cordialmente.
       -- No foi aqui que eu fiz minha ltima ultrasono-grafia -- Emily comentou, ansiosa.
       -- No, dessa vez o dr. Bryant solicitou uma ultra-sonografia tridimensional.
       -- Tridimensional? O que  isso?
       -- Nada para se preocupar -- a enfermeira assegurou. --  apenas um exame que nos
fornece imagens mais claras do beb.
       -- Mas por qu? Por que precisam disso?
       -- Assim que voc vestir o avental poderemos comear a ultra-sonografia.
       -- Voc no precisa ficar aqui agora -- Emily disse para Marco, enquanto puxava a
cortina em volta da maca e se despia. Ela s pensava no beb. Por que ningum lhe dizia nada?
Parte dela ficou aliviada ao ver que Marco ignorou seu pedido e continuava ali, mas a outra parte
ficou mais ansiosa ainda. E se houvesse algo de errado com o beb? O orgulho de Marco... no
importava o que Marco pensava. Ela teria o beb, de qualquer jeito.
       Depois de vestir o avental e abrir a cortina, ela parecia vulnervel e amedrontada. S de
olhar para ela, Marco sentia como se um gigante estivesse espremendo seu corao e arrancando
dele uma emoo to intensa que chegava a queimar sua alma.
       A enfermeira ajudou Emily a se deitar na cama. Como estava com vinte semanas de
gravidez, sua barriga estava levemente arredondada. Emily prendeu a respirao ansiosa
enquanto a mdica, uma profissional muito jovem, passava o transdutor sobre sua barriga,
estudando as imagens que apareciam na tela.
       -- Por que estamos fazendo este tipo de ultra? -- Emily perguntou.
       -- Veja, olhe, seu beb est bocejando. --A mdica sorriu, ignorando a pergunta.
       Emily olhou para a tela, seu corao deu um salto violento de felicidade quando viu as
formas perfeitas daquela pequena criatura.
       -- Talvez no ele, e sim ela.
       Emily estava to entretida olhando para a tela que nem percebeu que Marco estava de p
atrs dela, olhando por cima de sua cabea a imagem do beb deles na tela.
       -- Ah, acho que posso afirmar que  um menino -- a moa disse para Marco, com um
largo sorriso. Em seguida, ela moveu silenciosamente o aparelho para ver o corpo do beb. Foi
ento que o sorriso deu lugar a uma expresso compenetrada.
       Por que ela no falava nada? Emily se preocupou. Por que olhava to atenta para a tela?
Seu corao se acelerou de medo.
       -- O que foi? -- Emily perguntou ansiosa. -- Alguma coisa errada?
       -- Estou quase terminando e depois poder se vestir -- a jovem disse calmamente. -- Voc
tem consulta com o dr. Bryant?
       -- Sim -- Emily confirmou. -- Olhe, se houver alguma coisa errada com o meu beb...
       -- Dr. Bryant ir lhe explicar a ultra-sonografia. -- A jovem usava uma mscara
profissional para manter a distncia.
       Ela olhou para Marco e viu em seus olhos que ele tambm percebera o peso das palavras da
jovem. O que seria? O que estava errado? O pequeno ser que vira na tela estava bocejando e se
esticando, aos seus olhos ele parecia perfeito. Talvez estivesse se preocupando  toa. Talvez
fosse apenas rotina.
       Suas mos tremiam enquanto se vestia. Do outro lado da cortina, ela podia ouvir a
enfermeira dizendo para Marco que os levaria para ver o dr. Bryant...


                                       CAPTULO QUINZE

       Emily transpirava de ansiedade ao entrar no consultrio do obstetra. O dr. Bryant estava
sorrindo, mas no tanto quanto da primeira vez que se viram.
       -- Ah, Emily, bom, bom. -- Ele olhava para Marco, mas antes que pudesse apresent-lo,
Marco adiantou-se, estendeu a mo e disse:
       -- Prncipe Marco de Niroli. Sou o pai do beb.
       -- Ah, sim... excelente.
       -- Dr. Jones, por que tive de fazer outra ultra-sonografia? -- Emily perguntou, sem poder
esperar muito. -- E esta ultra 3D, o que  isso? Por qu...?
       -- Por favor, sentem-se. -- O obstetra no estava mais sorrindo, ele olhava e mexia nas
imagens que tinha sobre a mesa. -- Eu lamento dizer, mas parece que o beb tem uma
deficincia cardaca.
       -- Uma deficincia cardaca? O que exatamente isso significa? O beb ir...? -- Emily no
conseguiu prosseguir, suas emoes contidas estavam explodindo e a impediam de falar.
       -- S poderemos dar um diagnstico mais preciso entre a 22a e a 24a semana de gravidez.
Nessa fase, tudo o que podemos afirmar do exame  que o beb pode ter uma anomalia cardaca
fetal.
       -- Voc disse pode ter uma anomalia cardaca.
       Para Emily, a voz de Marco parecia vir de muito longe, como se ela no estivesse presente,
vivendo essa cena terrvel, como se ela e o beb tivessem ido para algum lugar seguro onde nada
pudesse lhes fazer mal.
       -- O que isso realmente significa? -- Marco questionou.
       -- Significa que o corao do beb no parece estar se formando como deveria. Pode ser
um pequeno problema ou uma coisa mais sria. Ainda no podemos afirmar. E por isso que
precisam consultar um cardiologista. H um muito bom aqui no hospital, que colabora com a
unidade pr-natal.
       -- Meu beb vai morrer? --A voz de Emily estava trmula de medo.
       -- No. -- O obstetra garantiu. -- Mas, dependendo da gravidade da anomalia, pode ser
necessria uma srie de operaes durante os primeiros anos da infncia e da adolescncia e,
talvez, se a coisa for extrema, haver necessidade de um transplante em algum estgio. Um mau
funcionamento cardaco severo pode realmente limitar o tipo de vida que o paciente possa vir a
ter. Se for o caso, o filho de vocs precisar de cuidados especiais. Meninos gostam de correr, de
brincadeiras violentas, mas pode haver a possibilidade de ele no vir a ser capacitado para isso.
       Seu filho podia ser um garoto que no poderia correr e brincar como as outras crianas,
uma criana que precisaria ser submetida a uma operao atrs da outra para manter-se vivo!
Mas ele teria uma vida, e ela daria cada hora, cada segundo de sua vida para ele e para suas
necessidades, Emily jurou com firmeza.
       Marco olhou para Emily e percebeu a devastao em seus olhos. Ele queria lhe dizer que
no precisava temer nada e que manteria os dois em segurana, ela e o filho deles. Queria dizer
que estaria sempre com eles, acontecesse o que acontecesse. E que eles eram a nica coisa
importante em sua vida. A notcia que acabaram de receber, tinha, de um s golpe, despertado
uma emoo to complexa e, ainda assim, to simples que ele no poderia negar. Amor...
       O que estava sentindo por Emily, no momento, era amor, o amor de um homem por uma
mulher, a me do seu filho, sua companheira, sem a qual sua vida no seria completa.
       Mais cedo, enquanto olhava as imagens na tela, ele vivenciou a mais extraordinria
sensao de resplandecncia. Percebeu que nada poderia ser mais importante para ele do que
guardar essa preciosa vida que crescia e a mulher que a carregava.
       Nem poder, nem fortuna, nada, nem o trono de Niroli.
       Marco sabia que outras pessoas poderiam no entender, ele prprio mal entendia o que
estava vivenciando naquele momento. Mas, de algum modo, no era necessrio entender ou ser
capaz de analisar, para ele era suficiente saber.
       Talvez ele tivesse viajado na direo desse lugar, para esses cruzamentos da vida, mais do
que imaginava. Talvez houvesse muitos sinais no decorrer dessa jornada que ele no observara.
Contudo, agora, no s os cruzamentos chegaram como foram transpostos de forma simples e
fcil, sem nenhuma hesitao ou dvida. Ele no poderia ser o rei de Niroli e pai. Certamente
no o pai dessa criana, que sempre teria a vida em uma corda bamba e que nunca deveria ser
sujeitada aos rigores de uma majestade. Esse menino necessitaria da presena e do amor do pai.
E ele teria. Separadamente, nem ele nem Emily eram fortes o suficiente para essa criana, mas,
juntos, seriam.

     -- Eu tenho de voltar para Niroli.
     Eles estavam de volta  cozinha de Emily. A consulta com o cardiologista tinha sido
marcada e agora Emily inclinou a cabea enquanto ouvia Marco.
     -- Sim, claro -- ela concordou.
       Esperava que ele dissesse isso, assim como tambm sabia que ele no exigiria seu retorno
para criar o filho na ilha. A famlia real de Niroli era arrogante e orgulhosa, to orgulhosa e
arrogante para aceitar que um descendente no fosse normal. No, Marco no desejaria uma
criana doente por perto para obrig-lo a lembrar-se disso. Ela podia sentir a dor da rejeio em
nome de seu filho, mas era capaz de se conter. Marco  que no era merecedor do seu filho, no o
contrrio. No era merecedor do filho nem do amor de Emily.
       Marco estava desesperado para contar a Emily como se sentia, mas no era o momento
certo. Infelizmente, tinha a obrigao de informar suas intenes, primeiro, ao av. Depois
poderia dizer a Emily o quanto a amava. Ser que ela o amava? Sentia-se como se uma faca
estivesse cravada em seu corao. Mas, mesmo que ela no o amasse, ele pretendia ser um pai
integral para seu filho.
       -- Estarei de volta em tempo para a consulta com o cardiologista.
       Emily concordou com a cabea. Ela no deveria deixar seus sentimentos tomarem conta
dela. Tinha de ser forte por causa do filho.
       -- Teria sido algo que ela fez ou deixou de fazer que causou a anomalia? -- perguntou ao
obstetra.
       -- No -- dr. Bryant lhe disse. -- s vezes a condio  gentica, mas algumas vezes
simplesmente acontece, sem uma razo especfica.

       -- O que quer dizer ao declarar que no quer mais a sucesso do trono?
       -- Eu quero dizer, vov, que estou abdicando de meu direito  coroa. Pretendo fazer um
anncio formal, mas queria que voc fosse o primeiro a saber -- Marco informou ao av.
       -- Voc est renunciando ao trono de Niroli por causa daquela mulher e do filho dela.
       Marco percebeu a descrena na voz do av.
       -- Minha mulher e meu filho. E, sim, estou desistindo do trono por eles. Por eles e pelo
nosso povo.
       -- O que quer dizer com isso?
       -- Isso nunca daria certo, vov. Eu no poderia substitu-lo. -- Marco notou um certo ar
de satisfao nos olhos do velho homem.
       -- Para mim, isso seria muito limitador -- ele concluiu com firmeza. -- Ns no fizemos
outra coisa a no ser discutir desde que cheguei aqui. Voc solapa qualquer tentativa de mudana
que eu faa.
       -- Porque elas no so certas para o nosso povo.
       -- Porque elas no so certas para voc.
       -- O que quer fazer causaria uma discrdia que dividiria a ilha.
       -- Se voc continuasse a me impedir, sim, haveria essa possibilidade. Niroli precisa de um
rei que a coloque no sculo XXI, eu acredito nisso firmemente. Mas tambm acredito que agora
no poderei ser o rei de Niroli. Isso no quer dizer que no me incomodo com minha terra natal
e com o meu povo. Eu me importo, e muito. Mas agora sei que posso fazer mais por Niroli e pelo
povo trabalhando fora dessa hierarquia.
       -- Espalhando anarquia, voc quer dizer?
       -- Preparando um fundo de caridade para ajudar aqueles que mais precisam -- Marco
corrigiu.

       Havia uma certa ironia no fato de ter se recusado a vestir aquele uniforme formal
pesadamente decorado que seu av lhe enviara em sua chegada a Niroli e vesti-lo agora, para sua
despedida formal, Marco admitiu. Mas, de algum modo, parecia que, ao vesti-lo nessa ocasio,
estava admitindo a tradio.
       A mdia mundial estava em alerta para seu anncio pblico e a praa j estava tomada de
gente.
      Como se sentia diferente agora, comparando com o primeiro dia de seu retorno. Estava
cheio de determinao para cumprir um destino que o havia dominado.
      Ele acordou pela manh com uma sensao de liberdade, com a impresso de ter
recuperado uma parte dele mesmo que aflorava, mas que ele fazia questo de negar.
      O criado lhe estendeu o chapu com plumas. Ele ouvia o agudo som dos trompetes.
Andando devagar e majestosamente, ele chegou ao balco. Sua entrada ocorreu ao som do Hino
Nacional de Niroli. Ento, ele deu um passo  frente...


                                         CAPTULO DEZESSEIS

       Emily parou diante de uma vitrine para se olhar e ajeitou o cabelo. Tinha ido visitar um
cliente, mas mal conseguiu se concentrar por estar muito apreensiva com o que o cardiologista
poderia dizer. Uma parte dela queria antecipar a consulta, enquanto outra queria adi-la. Ela
estava em frente a uma loja de aparelhos de TV e, ao olhar distraidamente para uma delas,
congelou ao deparar com Marco. A cmera se concentrava nele e, em seguida, mostrava a
multido na praa.
       O que estava acontecendo? Emily s pde pensar em uma coisa: era a posse formal de
Marco como rei. Ela desejava sair de frente da loja, mas acabou entrando.
       Enquanto o reprter comentava sobre as ltimas notas do hino nacional de Niroli, Emily
estava concentrada no rosto de Marco. Esta poderia ser a ltima vez que o via.
       -- Povo de Niroli... O que tenho para dizer a vocs hoje me causa um imenso prazer e tambm uma
enorme tristeza. Imenso prazer porque, ao deixar vocs, estarei assumindo um dos maiores compromissos
que um homem pode fazer, um compromisso com o futuro atravs da prxima gerao. Enorme tristeza
porque, para fazer isso, devo abdicar de minhas responsabilidades para com vocs, povo de Niroli...
       Emily quase pde sentir a onda de surpresa que surgia na multido que o ouvia. Seus
pensamentos eram um turbilho. O que Marco estava fazendo? Ele era o futuro rei de Niroli e
nada poderia ou deveria mudar isso... Ela ouvia suas severas crticas ao av e sabia o quanto
estava ansioso para fazer algo pelo seu povo. E agora ele estava dizendo...
       -- Eu acredito que Niroli e o seu povo necessitam de um governante com um perfil diferente do meu,
um governante que possa combinar o melhor do passado com uma caminhada rumo ao sculo XXI,  nisso
que meu av e eu acreditamos. O rei Giorgio precisa de um herdeiro que o substitua, algum em quem
confie e que v preservar todas as coisas boas da nossa tradio. Niroli precisa de um rei que possa
conduzi-los ao futuro. Mesmo com toda a vontade do mundo, no posso ser esse rei.
       Um baixo murmrio de objeo dominou o ambiente, era possvel ouvir a voz dos mais
jovens gritando e declarando, de acordo com o que o reprter da TV informou, que Marco era o
rei que eles queriam.
       -- No pense, meu povo, que eu os estou abandonando. Em breve serei pai de uma criana, e esse
fato me deu a conscincia da importncia do lao entre pais e filhos, entre uma gerao e outra, entre um
governante e seu povo. Meu amor pelo meu filho me fez mudar e me deixou mais humilde, alm de reforar
o amor que sinto pelo povo de Niroli. Tudo isso  por amor, tanto pelo meu filho quanto por vocs, meu
povo. Estou abdicando da sucesso ao trono, mas nunca pensei em abandon-los. Pretendo criar um fundo
que ir ajudar os cidados de Niroli mais necessitados. Isso proporcionar uma oportunidade para os
nossos jovens serem educados e poderem viajar para o exterior, para ampliar seus horizontes e, depois,
compartilhar o que aprenderam.  meu fervoroso desejo que esta ilha tenha um sistema de incentivo aos
jovens para que possam desenvolver suas potencialidades. Eu posso fazer isso melhor de fora da hierarquia
real. Ao mesmo tempo, estarei sempre dando apoio ao meu av e a quem ele escolher para assumir o trono.
Peo a bno de vocs, povo de Niroli, e sua compreenso pois algumas vezes  mais importante para um
homem ser apenas um homem, do que ser um rei...
       -- Com licena querida, ns j vamos fechar a loja.
       Com os olhos embaados com as lgrimas, Emily olhou para o jovem que a abordava.
Marco saiu do balco.
       Emily caminhava para casa refletindo sobre o que Marco tinha feito. Ele declarou para o
seu povo que estava abdicando do trono em funo de seu filho, o filho dela. Por qu? Marco era
arrogante e orgulhoso, um perfeccionista. Ser que ele ou o av temiam que a existncia de um
filho que no era perfeito pudesse, de algum modo, abalar o poder da famlia real de Niroli?
Teria seu av o forado a desistir, ou sua prpria determinao o estimulou a abdicar? De
qualquer forma, ela no gostaria de ser responsvel pela desistncia do futuro rei de Niroli pelo
trono. Como tambm no gostaria que seu filho crescesse carregando o fardo e a culpa pela
deciso de seu pai ter se negado a cumprir o que Emily sabia que ele estava ansioso por assumir.
       Ela dobrou a esquina para entrar em sua rua e parou, o corao disparou por baixo das
costelas ao ver Marco parado em frente  porta de sua casa. Ridiculamente, seu primeiro impulso
foi dar meia-volta, mas ele j a tinha visto e caminhava em sua direo.
       -- O que est fazendo aqui? -- ela perguntou, quando ele a alcanou. --Acabei de v-lo na
TV! Marco, voc no pode abdicar. Por que fez isso? Isso no ...
       -- Essa deciso no  sua -- Marco retrucou calmamente. -- Era minha, e quanto a voc
ter me visto na TV, bem, deve ter sido em algum programa reprisando os acontecimentos do
dia. Eu fiz o discurso de abdicao s 11h desta manh.
       -- No  justo voc declarar em pblico que  por causa do meu filho -- ela condenou,
emocionada. -- Ele j vai ter muito o que enfrentar para ainda ter de lidar com a culpa de ter
sido responsvel pelo...
       -- Ns podemos discutir isso l dentro? -- Marco a interrompeu.
       Emily lhe estendeu as chaves e deixou que ele abrisse a porta.
       A pequena casa tinha o cheiro de Emily, Marco reconheceu, e tambm se deu conta do
quanto sentira saudades dela. Em breve, certamente, o ar teria o cheiro de beb. A certeza de que
tinha tomado a deciso certa aumentou durante a viagem, a cada quilmetro que o aproximava
dela. Ele reconheceu o quanto aguardava ansioso para fazer parte dessa unidade familiar que
formavam com o beb. Era como se uma porta se fechasse atrs dele e, junto com ela, um velho
ambiente que no era mais relevante em sua vida, enquanto outra se abria, com tudo o que
desejava.
       -- No havia necessidade de voc abdicar, Marco -- Emily reclamou assim que entraram
em casa. -- Eu sei o quanto queria ser rei, ento, por qu?
       -- Se voc tivesse ouvido o meu discurso na ntegra, saberia por que decidi abdicar e por
que era necessrio fazer isso.
       -- Por causa do nosso beb? Porque ele no  perfeito? Porque voc tem vergonha dele e
junto com seu av no quer associ-lo a Niroli?
       -- O qu? Vergonha dele? Voc no poderia estar mais errada. Se tenho vergonha de
alguma coisa,  de mim mesmo por ter demorado tanto tempo para reconhecer o que realmente
importa para mim. Ou talvez tenha reconhecido, mas no queria admitir. Emily, quando voc
estava fazendo a ultra-sonografia e vi nosso beb, eu soube, acima de qualquer dvida, que voc
e ele so as coisas mais importantes no mundo para mim. Realmente, acho que j sabia
parcialmente disso desde a primeira vez que fui para Niroli e senti tanta saudade de voc que
tive de voltar para v-la. Com certeza eu sabia disso quando me disse que estava grvida, e tudo
o que conseguia pensar era em arrumar um jeito de mant-la comigo. Eu no poderia e no
aceitaria o fato de que no era possvel ser rei e t-los ao mesmo tempo. E, ento, voc me disse o
quanto estava satisfeita por nosso filho nunca poder vir a ser rei, e foi como se voc tivesse
destrancado uma porta dentro de mim. Por trs disso, estendem-se as lembranas de minha
infncia, as constantes batalhas de meus pais com meu av para me propiciarem uma infncia
normal e meu prprio senso de solido por ser quem eu era. No fundo, eu sabia que voc estava
certa em no querer isso para nosso filho.
       -- Mas voc queria ser rei! Voc tinha tantos planos, gostaria de fazer tanta coisa, no
pode desistir de tudo isso.
       -- Eu no pretendo. Posso fazer todas essas coisas sem ser rei. De fato, posso faz-las mais
facilmente. Meu av nunca deixaria as rdeas do governo comigo e as constantes brigas e
hostilidade entre ns no fariam bem ao nosso povo. Posso fazer mais de fora das limitaes da
realeza, alm de poder fazer todas essas coisas com voc ao meu lado. Amo voc, Emily.
       Tinha tanta coisa que ela queria dizer, tantas perguntas, tantas lembranas do tempo em
que achava que ele no a amava. Mas, de certa forma, ela estava em seus braos e ele a beijava
com muito ardor, reivindicando uma paixo que poderia dizer muito mais do que um monte de
palavras.

       -- Ainda no acredito que isso esteja acontecendo -- Emily sussurrou para Marco meia
hora depois. Ela ainda estava em seus braos, mas s agora no quarto, deitados lado a lado em
sua cama. A forma como Marco controlou seu desejo em possu-la, sendo gentil para proteger o
beb, trouxe-lhe lgrimas de emoo aos olhos e inundou seu corao com o amor que sentia por
ele e que tanta amargura causara no passado.
       -- Voc quer que eu a convena? -- Marco provocou-a sugestivamente, cobrindo-lhe os
seios com a mo.
       -- Talvez -- ela concordou, com falsa discrio.
       -- Certo, venha se vestir. -- No era a resposta que ela esperava e isso ficou claro com a
aparente decepo que o fez rir.
       -- Ns vamos fazer compras -- ele disse. -- Vamos comprar uma aliana de casamento.
       Quando ela olhou para ele, Marco ressaltou:
       -- Voc disse que gostaria de ser convencida. No vejo maneira melhor de faz-lo do que
me casando com voc.
       -- Oh, Marco... no deveramos deixar para fazer planos depois da ultra?
       -- Por qu? A provvel deficincia cardaca do nosso beb no muda em nada os meus
sentimentos por ele e por voc. Voc sugeriu mais cedo que eu poderia estar com vergonha do
nosso beb por ele no ser perfeito. Isso nunca aconteceria. Ele ser perfeito para mim, Emily,
porque  nosso, perfeito em todos os sentidos.
       -- Oh, no -- Emily protestou. -- Vai me fazer chorar outra vez.
       -- Ento terei que beij-la outra vez tambm -- Marco disse, fingindo demonstrar tdio,
mas sorrindo ao mesmo tempo.

       -- Bem, ento vamos dar uma olhada. Faz algumas semanas desde que fizemos a ltima
ultra-sonografia, isso deu chance para o beb crescer e nos dar uma ideia melhor do que est
acontecendo. Como lhe disse na primeira consulta, nos dias de hoje, uma cirurgia intra-uterina
nos permite fazer muito mais coisas do que poderamos no passado.
       Emily sentiu Marco apertar sua mo, mas no ousou olhar para ele para no desmoronar.
       As ltimas semanas desde a primeira consulta com o cardiologista pareciam distantes.
Eles conseguiram tempo para se casar e visitar Niroli, onde o av de Marco a recebeu e deu boas-
vindas  famlia. Marco aproveitou a oportunidade para atualizar o av com relao aos planos
do fundo de caridade que prometera no discurso de abdicao.
       Agora, esperavam ansiosos pela opinio do especialista, aps mais uma ultra-sonografia.
       -- Bem, no caso do beb de vocs, eu no considero que uma operao seja apropriada.
       Emily deu um suspiro de desespero. Estaria querendo dizer que no havia esperanas?
       -- Qual  exatamente o prognstico do nosso beb? -- A voz de Marco no soava normal e
Emily pde perceber a incerteza contida nela.
       -- Muito bom. De fato, excelente -- o especialista os informou, sorrindo. -- H uma
pequena rea na qual devemos continuar de olho, mas parece que est se desenvolvendo bem.
Algumas vezes, o beb cresce e pra, e isso nos leva a fazer diagnsticos que posteriormente
temos de corrigir. Foi isso que aconteceu aqui. Inicialmente, isso nos levou a acreditar que o
corao do beb de vocs no estava se desenvolvendo devidamente, mas os ltimos exames
indicam que tudo est como deveria estar.
      -- Tem certeza? -- Emily perguntou ansiosa.
      -- Estou plenamente convicto. J tinha certeza na primeira consulta, mas quis esperar e
ver como tudo caminharia antes de falar qualquer coisa. Por isso solicitei essa ltima ultra-
sonografia.  claro que devemos continuar a monitorar a situao, s por segurana. Mas minha
opinio  de que no h nada para se preocuparem. Seu beb goza de perfeita sade e se
desenvolve normalmente.
      J na rua, Marco abraava Emily com fora e beijava carinhosamente as lgrimas que
escorriam em seu rosto.
      -- Mal posso acreditar nisso -- ela sussurrou. -- Oh, Marco...  como um milagre.
      -- Voc  o meu milagre, Emily -- Marco disse suavemente. -- Voc, nosso beb e o
futuro que compartilharemos.

                                                     ***

      -- Como o rei tem lidado com as coisas?
      -- No to mal quanto temamos. -- O graduado corteso era versado em diplomacia e
educao e por isso no tinha a inteno de contar ao ajudante mais jovem o que presenciara no
aposento real. O rei interrompera um discurso sobre a estupidez do neto e herdeiro ao se
confrontar com o relatrio que lhe entregaram, sobre um cirurgio australiano que estava 
frente de um novo tratamento para um problema cardaco do qual o prprio rei sofria.
      Diante disso, no havia nada na fotografia fora de foco e na curta biografia do jovem
australiano que pudesse provocar tal reao. Mas o graduado corteso que prestava servio ao
palcio havia muito tempo tambm notou o mesmo que o rei.
      -- Quero que tragam esse jovem aqui, e agora -- o rei ordenou...



      No corao do deserto rabe, uma figura solitria pesquisa o reino que ama...

       No era uma tempestade costumeira. Parecia que o vento havia sido mandado para puni-
lo. Os pequenos cristais de areia aoitavam seus olhos, mas ele no fazia nenhum movimento
para cobrir o rosto. No tinha ido at o lugar para se esquivar dos elementos. Ele fora para
aceitar o que era dele, a terra que por sculos falava seu nome, o reino que, desde o primeiro dia
do seu nascimento, era seu por conquista. Mas por que no poderia ouvir o chamado...?
       Mais adiante, ele estudou seu caminho nas profundezas do deserto. Seu deserto. A terra
rida queimando seus ps, o vento hostil puxando sua tnica, seus cabelos, sua alma. Mas ainda
no encontrara nada. A sombra em sua mandbula escurecia  medida que ele cavalgava pela
noite. As plpebras pesadas nunca se fechavam em sono, as finas gotas de suor escorriam em um
fio salgado pelo corpo que era construdo pela perseverana, pela graa, pelo perigo. Um corpo e
uma mente que podiam sentir a iminente batalha que enfrentaria. Uma batalha de direito e
obrigao. Uma batalha que poderia arranc-lo desse reino, dessa casa, para um lugar que havia
bem no centro do seu ser.
       Pela manh, ele retornou e encarou o sol diretamente, seus clios grossos protegendo os
olhos do ferimento da claridade. Era hora de deixar aquele lugar. Essa terra rida lhe dera as
respostas, o capturara e lhe mostrara a verdade. Ele sorriu discretamente, demonstrando
entendimento. A jornada s havia comeado...
       Acompanhe a srie As Leis de Niroli e descubra mais pistas sobre este misterioso prncipe do
deserto e at onde sua jornada o levar.

